Hamlet

A TRAGDIA DE HAMLET, PRNCIPE DA DINAMARCA William Shakespeare



NDICE







ATO I Cena I Cena II Cena III Cena IV Cena V






ATO II Cena I Cena II ATO III Cena I Cena II Cena III Cena IV ATO IV Cena I Cena II Cena III Cena IV Cena V Cena VI Cena VII ATO V Cena I Cena II



PERSONAGENS



CLAUDIO, rei da Dinamarca.



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HAMLET, filho do defunto rei e sobrinho do rei reinante. FORTIMBRAS, principe da Noruega. HORCIO, amigo de Hamlet POLNIO, camareiro- mor. LAERTES, seu filho. VOLTIMANDO,( 
corteso) CORNLIO,( corteso) ROBENCRANTZ,( corteso) GUILDENSTERN,( corteso) OSRICO, Um nobre. Um padre. BERNARDO,( oficial) MARCELO,( oficial) FRANCISCO soldado. 
REINALDO, criado de Polnio. Um capito. Embaixadores ingleses. Atores, coveiros. GERTRUDES, rainha da Dinamarca, me de Hamlet OFLIA, filha de Polnio. Nobres, 
senhoras, oficiais, soldados, marinheiros, mensageiros e criados. O Fantasma do pai de Hamlet. CENA Elsinor. 



ATO I Cena I Esplanada do castelo de Elsinor Francisco, de sentinela; Bernardo entra 



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BERNARDO: Quem est a? FRANCISCO: No; responda- me; pare e diga o nome. BERNARDO: Viva o rei! FRANCISCO: Bernardo? BERNARDO: Ele mesmo. FRANCISCO: Vindes exatamente 
na vossa hora. BERNARDO: Meia- noite, Francisco. Vai deitar- te. FRANCISCO: Muito grato vos sou por me renderdes. Que frio! Chega a doer- me o corao. BERNARDO: 
Foi calma a guarda? FRANCISCO: No buliu nem rato. BERNARDO: Ento, boa noite. Se vires por a Marcelo e Horcio, dize- lhes que se apressem; esto ambos escalados 
comigo. 



FRANCISCO: Julgo ouvi- los. Ol! No se aproximem. Quem est a? (Entram Horcio e Marcelo.) H0RCIO: Amigos desta terra. MARCELO: E sditos do rei da Dinamarca. 
FRANCISCO: Boa noite para todos. MARCELO: Outro tanto te desejamos ns, meu bom soldado. Quem te rendeu na guarda? FRANCISCO: Foi Bernardo. Mais uma vez, boa noite. 
(Sai.) MARCELO: Ol, Bernardo! BERNARDO: Fale. Horcio est a? HORCIO: Ele em pessoa. BERNARDO: Bem- vindo, Horcio; salve, bom Marcelo. MARCELO: E a tal coisa, 
esta noite apareceu? BERNARDO: No vi nada. MARCELO: Horcio diz que tudo  fantasia; no quer acreditar no que contamos sobre a viso que duas vezes vimos. Por 
isso, o convidei a vir fazer- nos companhia nas horas desta noite. Desta arte ele confirma nossos olhos, se a apario voltar, e fala com ela. 



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HORCIO: Qual! No vem! No vem nada. BERNARDO: Bem, sentemo- nos; renovemos o assalto aos teus ouvidos, que to fortes se mostram para a histria do que vimos duas 
noites. 



HORCIO: Pois sentemo- nos, para ouvir a Bernardo sobre o assunto. BERNARDO: Na ltima noite, ao vir iluminar aquela estrela, que est a oeste do plo, a parte exata 
do cu em que ora brilha, eu e Marcelo, ao soar uma hora o sino... 



MARCELO: Pra! No continues; ei- lo de novo. (Entra o Fantasma.) BERNARDO: Exatamente a forma do rei morto. MARCELO: Fala- lhe tu, Horcio, que s instrudo. BERNARDO: 
No  igual ao rei? V bem, Horcio. HORCIO: Igual; o espanto e o medo me confundem. BERNARDO: Deseja que lhe falem. MARCELO: Fala, Horcio. HORCIO: Quem s, que 
assim usurpas estas horas da noite e a forma nobre e belicosa que ostentava, marchando, a majestade do sepultado rei da Dinamarca? Pelo cu, fala; ordeno- te! 



MARCELO: Ofendeu- se. BERNARDO: Vai recuando. HORCIO: Detm- te e fala! Intimo- te! (Sai o Fantasma.) MARCELO: Foi- se, sem dizer nada. BERNARDO: Ento, Horcio? 
Assim tremendo e plido... No  mais do que simples fantasia? Que pensais de tudo isso? HORCIO: Pelo meu Deus, teria duvidado, se a verdade sensvel no me viesse 
ferir a vista. MARCELO: Ao rei se assemelha? HORCIO: Como tu te assemelhas a ti mesmo. Essas as armas que trazia, quando derrubou o ambicioso Noruegus; desse modo 
franziu o sobrecenho, depois da discusso, quando no gelo 19 jogou a resistente machadinha. 



 muito estranho. 



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MARCELO: Por duas vezes, j, nesta hora morta, passou por ns com o mesmo ar belicoso. HORCIO: No posso achar explicao; contudo, de maneira geral, penso que 
o fato  indcio de algum mal para ns todos. 



MARCELO: Sentem- se, ento, e quem souber nos diga donde vem fatigarem- se os vassalos deste reino com guardas rigorosas; e mais: por que fundir canhes de bronze, 
por que tanto armamento do estrangeiro, por que trabalham tanto os arsenais, sem das semanas separar os sbados? Que nos ameaa, para que essa faina suarenta a noite 
mude em companheira de trabalho do dia? Quem me pode dar disso a explicao? 



HORCIO: Eu, quero cr- lo.  o que se fala, ao menos: o defunto monarca, de quem vimos, ora, a imagem, foi desafiado, como  bem sabido, por Fortimbrs, a quem 
ciumento orgulho dava ousadia. O nosso bravo Hamlet - que assim por estes mundos lhe chamavam - matou o Noruegus, que, por contrato selado e sancionado pelas normas 
da nobreza, legava ao adversrio todos os territrios ocupados, se a vida a perder viesse na compita. Nosso rei, por seu lado, o equivalente de terras empenhou, 
que caberiam a Fortimbrs, no caso de afirmar- se vitorioso, tal como, pela fora desse artigo, as daquele para Hamlet foram deixadas. Mas agora o moo Fortimbrs, 
ardoroso porm falho de experincia, alistou pela fronteira da Noruega, s a preo de comida, uns tipos corajosos e sem terras, que antevem qualquer empresa gorda 
- que no  outra, justamente, como nosso Estado, de h muito, o reconhece - seno nos constranger pela violncia das armas a entregar- lhes esses domnios que de 
seu pai nos vieram. Eis a origem principal, quero crer, de tanta azfama, a causa desta guarda e a maior fonte da lufa- lufa em que se agita o reino. 



BERNARDO:  o que eu penso, tambm; deve ser isso.  o que explica passar por nossa guarda semelhante portento sob o aspecto do rei que foi e  causa desta guerra. 



HORCIO: O olho da inteligncia um argueiro o turva. Na poca mais gloriosa da alta Roma, pouco antes de cair o grande Jlio, saram dos sepulcros os cadveres em 
seus lenis, gemendo pelas ruas. Depois, chuviscou sangue, apareceram manchas no Sol, cometas; e o mido astro que tem fora no reino de Netuno, do eclipse padeceu 
do fim das coisas. Idnticos sinais de cruis eventos - precursores que so sempre dos Fados e prlogo de agouros iminentes - enviaram juntamente o cu e a terra 
por sobre o nosso clima e nosso povo. Mas, silncio! Cautela! Ei- lo que volta. 



(Entra o Fantasma.) Vou falar- lhe, ainda mesmo que me mate. Pra, iluso! Se tens o uso da fala, responde- me! Se  de necessidade fazer algo de bom, que te alivie 
e me d graa, fala- me! Se ests a par de algum mal iminente de tua ptria, e que possa ser desviado, oh, fala- me! Ou, ainda, se escondeste sob a terra, quando 
vivo, tesouros extorquidos, razo, se diz, de as almas retornarem, 



(Um galo canta.) detm- te e fala. Agarra- o bem, Marcelo. MARCELO: Posso dar- lhe com minha partasana? H0RCIO: Se resistir. BERNARDO: Aqui! 



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HORCIO: Por este lado! (Sai o Fantasma.) MARCELO: Desapareceu! Foi mal de nossa parte, em tanta mostra de majestade, usarmos de violncia. Como o ar,  invulnervel, 
no passando de brincadeira os nossos golpes vos. 



BERNARDO: Ia falar; o galo o no deixou. HORCIO: Nesse instante, tremeu como culpado diante da citao de ruim pressgio. Ouvi dizer que o galo, essa trombeta da 
manh, com sua voz vibrante e clara, desperta o deus do dia, e que a esse aviso, quer no mar, quer no fogo, no ar, na terra, os errantes espritos retornam para 
seus postos, do que temos clara confirmao em quanto presenciamos. 



MARCELO: Quando o galo cantou, desvaneceu- se. Dizem que quando o tempo se aproxima de a data festejarmos do natal do nosso Salvador, essa ave canta durante toda 
a noite. Ento, esprito nenhum anda vagante, dizem; todas as noites so salubres; os planetas no tm influncia, os gnomos, os bruxedos: to gracioso  esse tempo 
e to sagrado. 



HORCIO: Ouvi falar, tambm, e em parte o creio. Mas vede: a aurora com seu manto rubro passeia sobre o orvalho alm do morro. Ponhamos fim  guarda. Sou de aviso 
que os fatos desta noite os transmitamos ao moo Hamlet, pois, por minha vida, esse esprito mudo h de falar- lhe. Concordais em fazer- lhe esse relato que o dever 
e a afeio de ns o exigem? 



MARCELO: Faamo- lo, vos peo; eu sei o ponto em que  fcil falar- lhe esta manh. (Saem.) Cena II Uma sala de recepo no castelo. Entram o Rei, a Rainha, Hamlet, 
Polnio, Laertes. Voltimando, Cornlio, nobres e squito. 



O REI: Conquanto esteja fresca, ainda, a memria do traspasso de Hamlet, o irmo saudoso, e chor- lo devssemos, contraindo toda a corte em tristeza o sobrecenho: 
tanto a razo se impe  natureza que com sbia tristura o relembramos ao tempo em que pensamos em ns mesmos. Por isso,  que era nossa irm, e agora nossa rainha, 
a imperial herdeira deste reino guerreiro, com alegria, por bem dizermos, parcialmente frustra, num dos olhos o choro, no outro o riso, ledos no funeral, tristes 
na igreja, sabendo equilibrar a dor e o encanto, tomamos como esposa, aps ouvirmos vossos conselhos, sempre e em tudo livres. Nossos agradecimentos por tudo isso. 
Agora Fortimbrs, o moo, como bem o sabeis, subestimando nossa fora, ou mesmo pensando que o traspasso de nosso irmo poria o Estado fora dos eixos, sonha com 
vantagens pessoais, no cessando de inquietar- nos com mensagens que visam a reaver- nos as terras que seu pai petdeu na luta, conforme as condies estipuladas 
com nosso bravo irmo. Sobre ele, basta. Passemos a tratar de ns e desta convocao:  o caso que escrevemos a Noruega, tio desse moo Fortimbrs, que, de cama 
e muito doente, de certo ignora os planos do sobrinho, pedindo- lhe intervenha no sentido de sofrear- lhe o ardor, visto que as levas e alistamentos esto sendo 



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feitos nos seus domnios. Da vos despacharmos, bom Cornlio, e tambm vs, Voltimando, com meu saudar ao velho Noruegus, sem mais poder pessoal para tratardes 
com o rei, alm do que estiver previsto nas vossas instrues. E agora, adeus; que a pressa recomende o vosso zelo. 



CORNLIO E VOLTIMANDO: Demonstr- lo- emos nisto, como em tudo. O REI: Estamos certos disso; passai bem. (Voltimando e Cornlio saem.) 



Dize agora, Laertes, que pretendes. J nos falaste de algo. Que , Laertes? No se dar que percas as palavras, se falares com senso ao soberano da Dinamarca. Que 
nos poderias pedir, Laertes, que no fosse nossa ddiva, no pedido de tua parte? A cabea no  to bem casada com o corao, nem serve a mo  boca com mais zelo, 
que ao trono teu bom pai. Que desejas, Laertes? 



LAERTES: Real senhor, permisso de regresso para a Frana. Ainda que de bom grado eu tenha vindo  vossa coroao, confessar devo que, cumprido o dever, meus pensamentos 
e desejos, sujeitos  vossa alta benevolncia,  Frana me conduzem. 



O REI: Teu pai j o consentiu? Que diz Polnio? P0LNI0: Sim, milorde, arrancou de mim meu tardo consentimento  custa de insistncia, tendo eu, por fim, selado 
seu pedido com meu custoso "sim". Por isso, peo- vos consentirdes que volte para a Frana. 



O REI: Laertes, a hora  boa; usa o teu tempo e a teu sabor e dotes o aproveita. E agora, primo Hamlet, primo e filho... 



HAMLET ( parte): Parente, mais; querido, muito menos. O REI: Por que sempre o teu rosto com essas nuvens? HAMLET: Nem tanto, meu senhor, o Sol me aquece. A RAINHA: 
Despe- te, bom Hamlet, desse luto, e deita olhar amigo  Dinamarca. No prossigas assim, de olhos cados, a procurar teu nobre pai na poeira.  lei comum, tu o sabes; 
quantos vivem, passam da natureza para a vida da eternidade. 



HAMLET:  lei comum, realmente, minha senhora. RAINHA: Ento, se  assim com todos, que te parece estranho nesse caso? HAMLET: No parece, senhora; . No conheo 
"pareces", boa me. Nem esta capa sombria, nem as vestes costumeiras de solene cor negra, os tempestuosos suspiros arrancados do imo peito, as torrentes fecundas 
que me descem dos olhos, o semblante acabrunhado, nem todas as demais modalidades da mgoa podero nunca, em verdade, definir- me. Parecem, to- somente, pois so 
gestos de fcil fingimento. Mas h algo dentro em mim que no parece. Tudo isso  roupa e enfeite do infortnio. 



O REI: Recomenda- te, Hamlet, a natureza chorares o teu pai dessa maneira Mas, lembra- te: teu pai perdeu um pai, que o seu, tambm, perdera. Ao filho vivo cabe 
o grato dever de lastim- lo por algum 



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tempo. Mas mostrar to grande obstinao no luto,  dar indcios de teima e de impiedade;  a dor dos fracos; revela uma vontade mpia e rebelde, corao dbil, 
mente anarquizada, inteligncia pobre e sem cultivo. Se tem de ser assim, tal como as coisas mais comuns que aos sentidos nos afetam, para que nos mostrarmos rigorosos 
e pueris? Ora!  ofensa ao prprio cu,  natureza, aos mortos, mais que absurda para a razo, cujo princpio bsico  o traspasso dos pais, e que no cessa de proclamar 
desde a hora do primeiro cadver at ao morto deste instante: Tinha de ser assim. Vamos, te peo, deixa essa dor estril e nos trata como a pai. Sim, que o mundo 
tome nota: o mais chegado s tu ao nosso trono. No menos generosos sentimentos dedica ao filho um pai do que os que  tua pessoa consagramos. Teu desejo de voltar 
novamente para a escola de Vitemberga ope- se ao nosso alvitre. Por isso, conjuramos- te a ficares sob o grato prazer de nossos olhos, dos nobres o primeiro, primo 
e filho. 



A RAINHA: No deixes que tua me gaste suas splicas em vo, Hamlet. Peo- te ficares conosco. No te vs a Vitemberga. 



HAMLET: Quanto em mim for, senhora, serei dcil. O REI: Isso sim, que  falar sensato e amvel. S como ns na Dinamarca. Vamos, senhora. O voluntrio "sim" de Hamiet 
sorri- me ao corao. Por isso, os brindes de hoje de Dinamarca o canho grande dever transmiti- los at s nuvens. O cu vai repetir, a cada taa do rei, troves 
da terra. E agora, vamo- nos. 



(Saem o Rei, a Rainha, Laertes, Polnio e o sqito.) HAMLET: Oh, se esta carne slida, to slida, se esfizesse, fundindo- se em orvalho! Ou se ao menos o Eterno 
no houvesse condenado o suicdio!  Deus!  Deus! Como se me afiguram fastidiosas, fteis e vs as coisas deste mundo! Que horror! Jardim inculto em que s medram 
ervas daninhas, cheio s das coisas mais rudes e grosseiras. Chegar a isso! Morto h dois meses! No, nem tanto... Dois? Um rei to bom, que, confrontado com este, 
era Apolo ante um stiro... To terno para a esposa, que ao prprio vento obstava de bater- lhe no rosto com violncia. Oh cus! Record- lo- ei? Pendia dele como 
se seus desejos aumentassem com a saciedade. E um ms depois... Paremos. Fragilidade, nome de mulher... S um ms, sem ter gasto ainda os sapatos com que o corpo 
seguiu do meu bom pai, qual Nobe, s lgrimas. Sim, ela -  cu! Um animal que  destrudo da faculdade da palavra, certo choraria mais tempo! - desposada! pelo 
irmo de meu pai, mas que tem tanto dele tal como eu de Hrcules. Num ms, antes que o sal das lgrimas to falsas secassem de seus olhos tumefeitos estar ela casada! 
Oh! pressa inqua de subir para o tlamo incestuoso! No pode acabar bem... Mas despedaa- te, corao;  mister ficar calado. 



(Entram Horcio, Marcelo e Bernardo.) HORCIO: Deus guarde a Vossa Alteza. HAMLET: Alegra- me rever- te com sade... Horcio, se a memria no me falha. H0RCI0: 
O mesmo criado, prncipe, de sempre. HAMLET: Amigo, amigo;  o nome que eu te dou. Qual a razo de haveres tu deixado. Vitemberga?... Marcelo? 



MARCELO: Meu bom prncipe... HAMLET: Muito prazer. (A Bernardo.) Bons dias. Mas falando srio, por que deixaste Vitemberga? 



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HORCIO: Simples disposio de um preguioso. HAMLET: No quisera ouvir isso de teus prprios inimigos. Por isso, no me faas ao ouvido a violncia de depores contra 
ti prprio. No, no s vadio. Qual o motivo que a Elsinor te trouxe? Conosco aprenders a beber muito. 



HORCIO: Senhor, os funerais de vosso pai. HAMLET: Meu caro condiscpulo, no zombes; creio que vieste para o casamento. de minha me. HORCIO: Realmente, foi bem 
perto. HAMLET: Economia, Horcio! Os bolos fnebres serviram para os frios do esposrio. Preferira encontrar no cu o inimigo mais ferrenho, a viver tal dia, Horcio. 
Meu pai! s vezes julgo ver meu pai. 



HORCIO: Como, senhor? HAMLET: Com os olhos da alma, Horcio. H0RCI0: Vi- o uma vez; um grande rei, de fato. HAMLET: Um homem, na acepo lata do termo; jamais 
poderei ver algum como ele. H0RCI0: Creio, senhor, que o vi nesta noite ltima. HAMLET: A quem? HORCIO: A vosso pai, senhor. HAMLET: O rei meu pai? HORCIO: Prestai- 
me ouvidos, refreando o espanto por algum tempo, at que eu vos relate tal maravilha, sob o testemunho destes senhores. 



HAMLET: Pelo cu, falai. H0RCIO: Duas noites a fio estes senhores, o Bernardo e o Marcelo, quando guarda montavam, na hora morta da meia- noite, viram uma figura 
parecida com vosso pai, armado da cabea at aos ps, avanando com postura lenta e grave. Trs vezes pelos olhos pvidos lhes passou,  s distncia de um basto 
de comando. Eles, gelados pelo medo, ficaram sem ter nimo para falar- lhe. O fato me confiaram, sob a maior reserva, ainda abalados. Montei guarda com eles na outra 
noite... E eis que na hora indicada, sob a forma que eles a descreveram, tudo exato, voltou a apario... Sim, vosso pai; conheci- o; estas mos no se parecem tanto. 



HAMLET: Onde foi tudo isso? MARCELO: Na esplanada, senhor, onde ficvamos de guarda. HAMLET: Falaste- lhe? HORCIO: Falei- lhe, sim, meu prncipe, mas no me respondeu. 
Contudo, quis- me parecer que ele o rosto levantava, pondo- se em movimento, como prestes a falar. Mas, nessa hora, cantou o galo. A esse canto, esgueirou- se ele 
apressado, sumindo  nossa vista. 



HAMLET:  muito estranho. 



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HORCIO: Por minha vida, prncipe,  a verdade. Pensamos que o dever nos prescrevia dar- vos conta de tudo. 



HAMLET: No vos encubro a minha inquietao. Montais guarda esta noite? MARCELO E BERNARDO: Sim, alteza. HAMLET: Tinha armas, o dissestes? MARCELO E BERNARDO: Sim, 
alteza. HAMLET: Da cabea aos ps? MARCELO E BERNARDO: Sim, de alto a baixo. HAMLET: Ento no lhe pudestes ver o rosto. HORCIO: Como no? A viseira estava erguida. 
HAMLET: E as feies, carregadas? H0RCI0: Expresso mais de dor do que de clera. HAMLET: Corado ou plido? H0RCI0: Muito plido. HAMLET: E o olhar? Chegou a fitar- 
vos? HORCIO: Durante todo o tempo. HAMLET: Desejara t- lo visto. HORCIO: Sem dvida, isso havia de caUsar- vos profunda admirao. HAMLET: Muito provavelmente. 
E demorou- se? HORCIO: O tempo de contar, com certa calma, at cem. MARCELO E BERNARDO: - Muito mais! Muito mais tempo! H0RCI0: No quando o vi. HAMLET: E a barba? 
Era grisalha? H0RCI0: Tal como a vi, quando ele ainda era vivo: negro- prateada. HAMLET  noite, eu farei guarda; talvez ele retorne. HORCIO:  quase certo. HAMLET: 
Se ele me aparecer sob a figura de meu pai, falar- lhe- ei, ainda que o inferno se me abrisse e mandasse ficar quieto. Mas peo a todos: se a ningum falastes dessa 
viso, sede discretos nisso. A qualquer ocorrncia desta noite, trocai sinais apenas, no palavras. Saberei ser- vos grato. Passai bem. Na 



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esplanada, entre as onze horas e as doze, pretendo aparecer. TODOS: Nossos respeitos. HAMLET: Vosso amor, como o meu. E agora, adeus. (Horcio, Marcelo e Bernardo 
saem.) A sombra de meu pai em armas! Tudo vai muito mal. Temo qualquer desgraa. Ah! Quem dera que a noite j chegasse! Mas at l, minha alma, s paciente. As aes 
mas, embora a terra as cubra, aos olhos dos mortais no se subtraem. 



(Sai.) Cena III Um quarto em casa de Polnio. Entram Laertes e Oflia. 



LAERTES: Tudo o que  meu j se acha a bordo; adeus. Cara irm, se houver ventos benfazejos e navios no porto, no te ponhas a dormir: d notcias. 



OFLIA: E duvida- o? LAERTES: O que respeita a Hamlet, e seu namoro, toma- o como capricho, simples moda, violeta que a estao produziu cedo, passageira e aromosa, 
no durvel, perfume e refrigrio de um minuto, nada mais. 



OFLIA: Nada mais? LAERTES: Isso, mais nada. Nosso corpo, ao crescer, no ganha apenas volume e msculos; o templo expande- se, e a par, tambm, se alarga o esprito 
e a alma com seu culto interior.  bem possvel que te ame agora, sem que fraude alguma lhe macule a virtude do alvedrio. Mas deves ter cautela, que os de sua posio 
no so donos de si mesmos. Ele  escravo do prprio nascimento; no pode, como o faz gente do povo, eleger para si, que dessa escolha depende a segurana e o bem 
do Estado. Da, necessitar subordin- la ao voto e aprovao do corpo, cuja cabea ele . Se te disser que te ama, cumpre  tua prudncia dar- lhe crdito na medida 
em que seja permitido passar do verbo  ao, o que mais longe no ir do que a voz da Dinamarca. Pensa na mancha, irm, para tua honra, se desses ao seu canto ouvido 
crdulo e o corao perdesses, ou se abrisses o teu casto tesouro aos seus assaltos. Cuidado, irm! Cuidado, Oflia amiga! Fica na retaguarda dos anseios, a coberto 
dos botes dos desejos. J prodigalidade  uma virgem revelar a beleza  prpria lua. Da calnia a virtude no se livra. Muitas vezes, o verme estraga as flores primaveris, 
bem antes de se abrirem. No orvalho e na manh da mocidade o vento contagioso  mais nocivo. S cautelosa; o medo  amparo certo. A mocidade  imiga de si mesma. 



OFLIA: Encerrarei no peito, como guardas, essas sbias lies. Mas, caro irmo, no faas como alguns desses pastores que aconselham aos outros o caminho do cu, 
cheio de abrolhos, enquanto eles seguem ledos a estrada dos prazeres, sem dos prprios conselhos se lembrarem. 



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LAERTES: Nada receies; mas  tempo; a vem nosso pai. (Entra Polnio.) Dupla bno, graa dupla. O acaso me concede este outro adeus. P0LNI0: Ainda aqui, Laertes? 
Para bordo! O vento se acha a tergo de tua vela; j te reclamam. Vai com a minha bno, e grava na memria estes preceitos: No ds lngua aos teus prprios pensamentos, 
nem corpo aos que no forem convenientes. S lhano, mas evita abastardares- te. O amigo comprovado, prende- o firme no corao com vnculos de ferro, mas a mo no 
calejes com saudares a todo instante amigos novos. Foge de entrar em briga; mas, brigando, acaso, faze o competidor temer- te sempre. A todos, teu ouvido; a voz, 
a poucos; ouve opinies, mas forma juzo prprio. Conforme a bolsa, assim tenhas a roupa: sem fantasia; rica, mas discreta, que o traje s vezes o homem denuncia. 
Nisso, principalmente, so pichosas as pessoas de classe e prol na Frana. No emprestes nem peas emprestado; que emprestar  perder dinheiro e amigo, e o oposto 
embota o fio  economia. Mas, sobretudo, s a ti prprio fiel; segue- se disso, como o dia  noite, que a ningum poders jamais ser falso. Adeus; que minha bno 
tais conselhos faa frutificar. 



LAERTES: Humildemente me despeo, senhor. P0LNI0: O tempo  curto; vai logo, que os criados j te esperam. LAERTES: Adeus, Oflia; guarda o que eu te disse. OFLIA: 
Guardei- o na memria, e a chave a levas. LAERTES: Adeus. (Sai.) P0LNI0: Que palavras, Oflia, ele te disse? OFLIA: Se o permitis, falou de lorde Hamlet. POLNIO: 
Ah, bem pensado. J me disseram que ele te dispensa alguma intimidade e que tu prpria tens sido liberal em dar- lhe ouvidos. Se  assim, de fato - o que me revelaram 
 guisa de advertncia devo ser- te franco: no te comportas com a prudncia que compete  minha honra e  minha filha. Que  que h entre vs dois? Fala a verdade. 



OFLIA Senhor, ultimamente fez- me muitas propostas de afeio. P0LNIO: Ora, afeio! Falas tal qual mocinha inexperiente do perigo de certas situaes. E tu? Acreditas 
em tais propostas? 



OFLIA: No sei como pensar, meu pai, sobre isso. POLNIO: Ouve, ento:  preciso que no passes de um beb, para teres recebido como moeda corrente essas propostas. 
Prope agora juzo, se no queres - e a pobre frase o agenta - para tolo me propor. 



OFLIA: Mas senhor, sua insistncia sempre foi de moral honrosa e digna. 



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P0LNI0: Moral! Bela expresso. Adiante! Adiante! OFLIA: E ele soube firmar os seus protestos de amor com os mais sagrados juramentos. POLNI0: Conheo isso; armadilha 
para tordos. Sempre que o sangue ferve,  lngua os votos que a alma no regateia vm e esplendem com mais luz que calor para extinguirem- se  s promessa frustros 
antes do ato. No os tomes por fogo. Doravante restringe a tua virginal presena; no deves pr muito elevado preo nessas propostas, como se ordens fossem para 
parlamentar. Enquanto a Hamlet, confia nele at este ponto:  moo, sobre dispor de corda bem mais frouxa, para andar, do que a tua. Em suma, Oflia, descr dos 
seus protestos; so agentes que desmentem a cor do hbito externo, mendigos de desejos inconfessos, que respiram candura e santidade para melhor lograrem. Novamente 
e em termos simples: doravante probo- te que sejas perdulria de teu cio, pondo- te a conversar com lorde Hamlet. V bem que o ordeno. E agora, pe- te a andar. 



OFLIA Ser- vos- ei obediente. (Saem.) Cena IV A esplanada. Entram Hamlet, Horcio e Marcelo. HAMLET: Que vento forte! O frio  insuportvel. HORCIO: E o ar cortante 
e agitado. HAMLET: Que horas so? H0RCIO: Penso que falta pouco para as doze. HAMLET: No; j bateram. HORCIO: J? No ouvi; ento no falta muito para que o fantasma 
volte a aparecer- nos. (Toque de trombetas e tiros de canho atrs da cena.) Que significa esse barulho, prncipe? HAMLET: O rei est acordado e d banquete. Bebe 
a valer, rodando tudo em torno. Cada gole de Reno  por trombetas e timbales marcado, que o triunfo do brinde lhe proclamam. 



HORCIO:  costume? HAMLET: , de fato. Mas a meu ver - embora aqui eu tivesse o bero e a educao -  um desses hbitos cuja quebra honra mais do que a observncia. 
Essas orgias torpes nos difamam de leste a oeste, junto aos outros povos. S nos chamam de bbedos, alcunha que nos deprime, por privar os nossos empreendimentos, 
ainda os mais brilhantes, da essncia medular de nosso mrito. Isso acontece s vezes noutros meios: se nasce algum com algum defeito ingnito - do que no  culpado, 
porque a origem para si no escolhe a natureza, pelo excesso de sangue, que, por vezes, os fortes da razo e os diques rompem, ou somente por hbito, que estraga 
a moral cotidiana - esse coitado, que leva pela vida tal 



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defeito, seja mancha do acaso ou vestimenta da natureza, embora suas virtudes sejam to puras quanto a graa e em nmero infinito, no mximo de nossa capacidade, 
perde no conceito geral por essa falha. A massa nobre se torna recalcada e diminuda pelo gro do defeito. 



(Entra o Fantasma.) HORCIO: Ei- lo, meu prncipe! HAMLET: Anjos do cu, correi em nosso auxlio! Quer sejas um bom gnio ou alma penada, quer tragas ar do cu ou 
sopro infecto, quer tenhas intenes ruins ou amorveis, to duvidosa  a forma que assumiste, que resolvo falar- te. Dou- te o nome de Hamlet, rei, meu pai, rgio 
Dans! No me deixes em trevas; dize a causa de teus ossos, que a morte j guardara, terem rompido o invlucro; o motivo de te haver o sepulcro, em que te vimos 
recolhido, lanado de suas fortes mandbulas de mrmore. Que pode significar vestires assim de ao, para o luar de novo visitares, tornando a noite hedionda, e a 
ns, ludbrio da criao, abalares deste modo com pensamentos que ultrapassam muito o mbito limitado de nossa alma? Fala; que  isso? A causa? Que faremos? 



(O Fantasma faz sinal a Hamlet.) HORCIO: Faz- vos sinal para irde- vos com ele, como se pretendesse algo dizer- vos sem testemunhas. MARCELO: Vede o gesto corts 
com que ele indica que em lugar apartado quer falar- vos. No deveis atender. 



HORCIO: De forma alguma. HAMLET: Assim, no falar; bem, segui- lo- ei. HORCIO: Ficai, senhor! HAMLET: De que posso temer- me? Minha vida? No vale um alfinete. 
Quanto a minha alma, em nada h de ofend- la, por ser algo imortal como ele prprio. Acena- me de novo; vou segui- lo. 



HORCIO: E se vos arrastar para a gua, prncipe, ou para o pico horrendo do rochedo que no mar se acha a prumo de sua base, para assumir, ento, forma espantosa 
e privar da razo a Vossa Alteza, levando- vos  insnia? Refleti. Sem outra qualquer causa, o simples fato do lugar, faz nascer desesperadas fantasias em todo e 
qualquer crebro que de to grande altura o mar contemple e o oua em baixo rugir. 



HAMLET: De novo acena- me. Caminha! J te sigo. MARCELO: No deveis ir, meu prncipe. HAMLET: Soltai- me. H0RCI0: Sede razovel, prncipe: ficai. HAMLET: Meu destino 
me chama;  ele que deixa as menores artrias do meu corpo com a mesma resistncia que a dos msculos do leo de Nemia. 



(O Fantasma acena.) 



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Outro sinal! Largai- me! (Desvencilha- se.) Ou, pelo cu, fao um fantasma do primeiro que ousar ainda deter- me. Caminha, digo; irei aonde tu fores. 



(Saem o Fantasma e Hamlet.) HORCIO: O delrio o conduz ao desespero. MARCELO: No devamos ter- lhe obedecido. HORCIO: Sigamo- lo. Que fim vai ter tudo isso? MARCELO: 
Algo est a apodrecer na Dinamarca. HORCIO: O cu dar remdio. MARCELO: Acompanhemo- lo. (Saem.) Cena V Outra parte da esplanada. Entram o Fantasma e Hamlet. 



HAMLET: Para onde me conduzes? No darei mais um passo. FANTASMA: Ouve- me! HAMLET: Isso  o que desejo. FANTASMA: J est perto o momento em que  foroso que de 
novo me entregue s labaredas sulfreas do tormento. 



HAMLET: Pobre esprito! FANTASMA: No me lastimes; ouve com ateno o segredo que passo a revelar- te. HAMLET: Fala, que estou obrigado a dar- te ouvidos. FANTASMA: 
E tambm a vingar- me, aps ouvires- me. HAMLET: Como!? FANTASMA: Sou a alma de teu pai, por algum tempo condenada a vagar durante a noite, e de dia a jejuar na 
chama ardente, at que as culpas todas praticadas em meus dias mortais sejam nas chamas, alfim, purificadas. Se eu pudesse revelar- te os segredos do meu crcere, 
as menores palavras dessa histria te rasgariam a alma; tornar- te- iam, gelado o sangue juvenil; das rbitas fariam que saltassem, como estrelas, teus olhos; o 
penteado desfar- te- iam, pondo eriados, hirtos os cabelos, como cerdas de iroso porco- espinho. Mas essa descrio da eternidade para ouvidos no  de carne e 
sangue. Escuta, Hamlet! Se algum dia amaste teu carinhoso pai... 



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HAMLET:  Deus! FANTASMA: Vinga o seu assassnio estranho e torpe. HAMLET: Assassnio? FANTASMA: Sim, assassnio torpe, como todos; mas esse  estranho, vil e inconcebvel. 
HAMLET: Conta- me, a fim de que eu, com asas rpidas como a meditao ou os pensamentos de amor, possa vingar- te. 



FANTASMA: Acho que podes. Mais lerdo do que a espessa planta que nas margens do Letes apodrece, se isso no te abalasse. Escuta, Hamlet! Contaram que uma cobra me 
picara, quando, a dormir, eu no jardim me achava. Assim, foi ludibriado todo o ouvido da Dinamarca por uma notcia falsa de minha morte. Mas escuta, nobre mancebo! 
A cobra que peonha lanou na vida de teu pai, agora cinge a coroa dele. 



HAMLET: Oh minha alma proftica! Meu tio! FANTASMA: Sim, esse monstro adltero e incestuoso. Com o feitio pessoal e com presentes -  dotes maus,  brindes, que 
tal fora tendes de seduo! - pde a vontade da rainha conquistar, que parecia to virtuosa, dobrando- a para o vcio. Que queda, Hamlet! Do meu amor, que tinha 
tal pureza que andava a par com o voto que eu fizera no nosso casamento - a um miservel que em confronto comigo nada vale! Mas se a virtude  firme, ainda que o 
vcio sob a forma do cu v cortej- la, a luxria, conquanto a um anjo presa, num leito celestial cedo se enfara, sonhando com carnia. Mas, devagar! Pressinto 
o ar da manh. Serei breve. Ao achar- me adormecido no meu jardim, na sesta cotidiana, teu tio se esgueirou por minhas horas de sossego, munido de um frasquinho 
de meimendro e no ouvido despejou- me o lquido leproso, cujo efeito de tal modo se ope ao sangue humano, que corre pelas portas e caminhos do corpo, to veloz 
como o mercrio, fazendo coagular com vigor sbito o sangue puro e fino, como o leite quando o cido o conturba. Assim, comigo: no mesmo instante impingens me nasceram, 
qual se eu fosse outro Lzaro, nojentas, pelo corpo macio. Adormecido, desta arte, me privou o irmo, a um tempo, da vida, da coroa e da rainha, morto na florescncia 
dos pecados, sem leos, confisso nem sacramentos, sem ter prestado contas, para o juzo enviado com o fardo dos meus erros.  horrvel, sim, horrvel, multo horrvel! 
Se sentimento natural tiveres, no suportes tal coisa. No consintas que o leito real da Dinamarca fique como catre de incesto e de luxria. Contudo, se nesse ato 
te empenhares, no te manches. Que tua alma no conceba nada contra tua me; ao cu a entrega, e aos espinhos que o peito lhe compungem. Deles seja o castigo. E 
agora, adeus! Mostra- me o pirilampo da madrugada; j seu fogo inativo empalidece. Adeus, Hamlet! Lembra- te de mim. 



(Sai.) HAMLET: Legies do cu!  terra! Que mais, ainda? Invocarei o inferno? Firme, firme, corao! No fiqueis velhos de sbito, msculos; agentai- me! Que me 
lembre de ti? Sim, pobre fantasma, sim, enquanto tiver sede a memria neste globo conturbado. Lembrar- me? Sim; das tbuas da memria hei de todas as notcias frvolas 
apagar, as vs sentanas dos livros, as imagens, os vestgios que dos anos e a experincia a deixaram. Essa tua ordem, s, h de guardar- se no volume e no livro 
do meu crebro, sem mais escrias. Sim, pelo alto cu,  mulher perniciosa! Vilo, vilo que ri! Vilo maldito! Meu canhenho... Preciso tomar nota que o homem pode 
sorrir e ser infame. Sei que ao menos  assim na 



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Dinamarca. (Escreve.) A vou, meu tio. Agora minha senha vai ser: Adeus, recorda- te de mim. Assim jurei. HORCIO: (dentro) - Milorde Hamlet! MARCELO (dentro) - 
Prncipe! HORCIO (dentro) - Que o cu o ampare. MARCELO (dentro) - Amm. HORCIO: Ol! Ol! Senhor! HAMLET: Ol, menino! Vem, meu passarinho! (Entram Horcio e 
Marcelo.) MARCELO: Que aconteceu, senhor? H0RCI0: Que houve, senhor? HAMLET: Extraordinrio! H0RCI0: Bom senhor, contai- nos. HAMLET: No, que o revelareis. H0RCI0: 
Eu, no, senhor; por Deus! MARCELO: Nem eu, tampouco. HAMLET: Que julgais? A alma humana poderia conceb- lo? Jurais no revel- lo? H0RCI0 E MARCELO: Pelo cu 
o juramos, meu senhor. HAMLET: No h em toda a Dinamarca um biltre que possa ser tratante mais chapado. H0RCI0: No era necessrio que nos viesse do outro mundo 
um fantasma dizer isso. HAMLET: Est bem, est bem; tendes razo. Desse modo, sem mais formalidades, apartemos as mos e dispersemo- nos. Vs, para onde os negcios 
e os pendores vos levarem - que todos os possuem, sejam quais forem. - Quanto  minha pobre parte... Ora vede: vou rezar. 



H0RCI0: So palavras sem nexo, meu senhor. HAMLET: Em verdade, compunge- me ofender- vos. De corao. H0RCI0: No h ofensa, prncipe. HAMLET: Por So Patrcio, 
h ofensa, Horcio, e grande, quanto  viso de h pouco. S vos digo que  um fantasma honesto. Mas, quererdes saber o que passou entre mim e ele, no pode ser; 
sofreai- vos como for. E agora, bons amigos - sim, que o somos, companheiros de escola e de caserna - concedei- me um favor. 



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HORCIO: Que pode ser, meu prncipe? Est feito. HAMLET: No contar o que vistes esta noite. HORCIO E MARCELO: Nada diremos. HAMLET: Bem; ento, jurai- o. HORCIO: 
Sob palavra de honra, serei mudo. MARCELO: Eu tambm; sob palavra. HAMLET: Em minha espada. HORCIO: J o juramos, senhor. HAMLET: Bem, mas agora jurai sobre esta 
espada. FANTASMA: (em baixo): Jurai! HAMLET: Ol, garoto! Ests a, valente. Ouvistes que da adega ele nos fala. Prestai o juramento. HORCIO: Formulai- o. HAMLET: 
Jamais falar de quanto presenciastes. Sobre esta espada FANTASMA: (em baixo): Jurai! HAMLET: Hic et ubique? ? Mudemos de lugar. Aqui, senhores. Ponde as mos novamente 
sobre a espada. No falareis jamais sobre o que vistes. Jurai por minha espada. 



FANTASMA: (em baixo): Jurai! HAMLET: Bravo, velha toupeira! E como furas a terra, bom mineiro! Ainda mais longe, meus amigos. H0RCI0:  dia e noite!  estranho! 
HAMLET: Recebamo- lo, ento, como a estrangeiro. H multa coisa mais no cu e na terra, Horcio, do que sonha a nossa pobre filosofia. Vinde novamente. Jurai de 
novo, assim Deus vos ajude, por mais que eu me apresente sob aspecto extravagante, tal como em futuro  possvel que eu venha a comportar- me, que jamais - se me 
virdes alguma hora cruzar assim os braos, ou a cabea sacudir deste jeito, ou dizer frases sem nexo: "Muito bem", ou "Poderamos se o quisssemos", ou "Vontade 
tenho de falar", ou discursos desse gnero - mostrareis saber algo. Que a divina Graa e a Misericrdia vos amparem. 



FANTASMA: (em baixo): Jurai! HAMLET: Sossega, alma penada! E agora, amigos, com todo o meu amor me recomendo. E tudo o que um pobre homem como Hamlet possa fazer, 
no empenho de agradar- vos, no faltar, querendo- o Deus. E vamo- nos. Peo silncio; os dedos sobre os lbios. Dos gonzos saiu o tempo. Maldio! Ter vindo ao 
mundo para endireit- lo! Partamos juntos. Vamo- nos. 



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(Saem.) ATO II Cena I Um quarto em casa de Polnio. Entram Polnio e Reinaldo. POLNIO: Reinaldo, d a meu filho este dinheiro, juntamente com as notas. REINALDO: 
Assim farei, senhor. POLNIO: Andars sabiamente, bom Reinaldo, antes de visit- lo, se inquirires de sua conduta. REINALDO: Assim o tencionava. P0LNIO: Muito bem 
dito; muito bem; mas olha: colhe primeiro informaes acerca dos nossos conterrneos que se encontram em Paris: quais os nomes, como vivem, com quem e quanto gastam. 
Se notares, com essa digresso, que eles conhecem meu filho, chegar- te- s para mais perto, de maneira que os toques com as perguntas. Concede que o conheces vagamente; 
por exemplo: o pai dele, alguns amigos, e a ele em parte. Compreendes, bom Reinaldo? 



REINALDO: Pois no; perfeitamente, meu senhor. P0LNIO: A ele em parte. Dirs depois: no muito se  o mesmo que suponho,  um turbulento, com tais e tais defeitos, 
e atribu- lhe quantos te parecer, mas no a ponto de causar- lhe desonra. Tem cuidado; somente alguns deslizes, to- s aqueles mais da moda e, entre os moos, 
compatveis com a liberdade. 



REINALDO: O jogo, por exemplo. P0LNI0: Sim; bebidas, esgrima, juras, brigas e mulheres. Irs at esse ponto. REINALDO: Mas isso, meu senhor, o mancharia. P0LNIO: 
No, se tiveres tino em teu ataque. No fars dele assunto s de escndalos, como se fosse dado  incontinncia. No  isso; retrata- lhe os defeitos, quais manchas 
naturais da liberdade, exploses de um esprito fogoso, selvajaria, s, de sangue indmito que investe contra tudo. 



REINALDO: Mas, senhor... P0LNIO: Por que tudo isso? REINALDO:  o que eu desejara saber, meu bom senhor. POLNIO: Eis o meu plano, e a meu ver o artifcio  proveitoso: 
se a meu filho imputares essas manchas, como que provenientes do trabalho, toma nota, teu interlocutor, que irs sondando, no caso de ao rapaz ter visto nelas, sem 
receio de errar, podes crer nisso, h de logo aderir- te  conseqncia: "Caro senhor", ou "amigo", ou "cavalheiro", de acordo com o falar da terra ou o ttulo da 
pessoa... 



REINALDO: Compreendo, meu senhor. 



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POLNIO: Nessa altura ele faz... ele faz... Que  que eu estava a dizer? Pela Santa Missa! Queria dizer algo... Onde foi que eu fiquei? 



REINALDO: "H de logo aderir- te  conseqncia" e "amigo ou coisa assim" e "cavalheiro". P0LNIO: Sim, aderir  conseqncia Esplndido! Adere assim: "Conheo o 
cavalheiro; vi- o ontem, ou anteontem, ou em tal dia, com tais e tais.  certo o que dissestes; joga muito, embriagou- se de uma feita, no tnis discutiu", ou, porventura: 
"Vi- o entrar uma vez em casa imunda, videlicet, bordel", e assim por diante. Agora v: a isca da falsidade apanha a carpa da verdade. Assim ns, os entendidos, 
usando de cautela e circunlquios, chegamos ao caminho por desvios. Seguindo os meus conselhos, faze o mesmo sobre meu filho. Entendes o que eu digo? 



REINALDO: Sim, senhor. P0LNIO: Que Deus seja contigo; passa bem. REINALDO: Meu bom senhor! P0LNI0: Observa por ti mesmo seus pendores. REINALDO:  o que farei, 
senhor. P0LNI0: Mas que ele continue com sua msica. REINALDO: Perfeitamente. POLNIO: Adeus. (Sai Reinaldo.) (Entra Oflia.) OFLIA: Oh, meu senhor, causou- me 
tanto medo! P0LNI0: Fala, em nome do cu! Medo por qu? OFLIA: Estava a costurar no quarto, quando, descomposto, me surge lorde Hamlet, gibo aberto, sem chapu, 
as meias cadas nos artelhos, e to branco quanto a camisa; os joelhos lhe tremiam; o olhar, to cheio de piedade, como vindo do inferno para relatar- me os eternais 
horrores. Desse modo me apareceu. 



P0LNI0: Louco de amor por ti? OFLIA: No sei, senhor; mas, em verdade, o temo. POLNIO: Que disse ele? OFLIA: Tomou- me fortemente pelo punho e afastou- me  
distncia de seu brao; depois, com a outra mo por sobre os olhos, o rosto me fitou, como querendo desenh- lo. Algum tempo assim quedou- se. Por fim, depois de 
sacudir- me o brao e menear a cabea por trs vezes, suspirou to profundo e to piedoso, como a despedaar- se- lhe a estatura e firnar- se- lhe o ser. Alfim, 
soltou- me; e a cabea virada, parecia que, sem o uso da vista se orientava, pois a porta passou a sem a ter visto, em mim o olhar mantendo sempre fixo. 



P0LNI0: Vem comigo; contemos isso ao rei.  o delrio do amor, nem mais nem menos, que com a 



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prpria violncia se aniquila, conduzindo a vontade ao desespero como o no faz outra paixo, de quantas sob o cu nos afligem. Estou triste. No foste spera com 
ele ultimamente? 



OFLIA: No, meu pai; mas, conforme o prescrevestes, lhe devolvi as cartas e neguei- me a receb- lo. POLNIO: Foi o que o ps doido. Pesa- me no o haver considerado 
com mais vagar; pensei que era namoro, e que sua inteno fosse perder- te. Maldita desconfiana! Em nossa idade  comum sempre o excesso nos juzos, como  prprio 
dos moos carecerem de discrio. Convm cont- lo ao rei. Mor dano colheremos se calarmos, do que dio, se esse amor lhe revelarmos. Vem. 



(Saem.) Cena II Um quarto no castelo. Entram Rei, a Rainha, Rosencrantz e Guildenstern. O REI: Bem- vindos, Rosencrantz e Guildenstern! Ainda que desejssemos rever- 
vos, a urgncia de empregar- vos deu motivo a este chamado. Certo ouvistes algo sobre a transformao de Hamlet; assim lhe chamo, que o exterior dele e o seu ntimo 
no so agora os mesmos. Qual a causa, fora a morte do pai, que o ps desta arte, to alheio a sua prpria inteligncia, no na posso saber. Por isso, peo- vos 
- j que ambos fostes criados juntos com ele, to afins no carter e na idade - que vos digneis ficar em nossa corte por algum tempo, para o distrairdes com vossa 
companhia, e tambm para investigardes, sempre que possvel, se algo que nos escapa o mortifica, e que, uma vez sabido, remediemos. 



A RAINHA: Tem falado bastante nos senhores. No pode haver outras pessoas que ele tanto aprecie. Se vos for do agrado mostrar- nos boa vontade e gentileza, despendendo 
conosco vosso tempo para lucro to- s de nosso anseio, ter nossa visita prmio digno do reconhecimento de um monarca. 



ROSENCRANTZ: Est em Vossas Majestades, pelo jus da soberania, no pedir- nos favor, mas ordenar- nos, como o queira vosso augusto prazer. 



GUILDENSTERN: Estamos prontos a obedecer- vos. Tensos at ao mximo, viemos nos pr aos ps de Vossa Alteza, para sermos mandados. 



O REI: Muito obrigado Rosencrantz, querido Guildenstern. A RAINHA: Muito obrigada Guildenstern, querido Rosencrantz.  com muito carinho que vos peo visitardes 
meu filho, que se encontra to mudado. - Um da sirva de guia e conduza at Hamlet estes senhores. 



GUILDENSTERN: Praza ao cu que lhe seja til e grato nosso auxlio e presena. A RAINHA: Deus o queira. (Saem Rosencrantz, Guildenstern e alguns criados.) (Entra 
Polnio.) P0LNI0: Regressaram contentes da Noruega, meu bom senhor, os nossos emissrios. 



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O REI: Sempre fostes o pai de boas novas. P0LNIO: No  verdade? Posso assegurar- vos que eu dedico o dever, assim como a alma, primeiro a Deus, depois ao meu querido 
soberano. E ora penso - salvo se esta cabea j no segue como dantes o rasto da prudncia - haver achado o motivo de estar Hamlet louco. 



O REI: Revelai- mo; a notcia me alvoroa. P0LNIO Primeiro os emissrios; a notcia vai ser a sobremesa do banquete. O REI: Pois faze- lhes as honras e os conduze. 
(Sai Polnio.) Disse, minha querida, haver achado as origens da doena de teu filho. A RAINHA: Temo que seja apenas a mais grave: o traspasso do pai e nosso enlace. 
O REI: Sond- lo- emos. (Volta Polnio, com Voltimando e Cornlio.) Bem- vindos, bons amigos. Dizei- me, Voltimando, o que trouxestes de nosso irmo Noruega. VOLTIMANDO: 
Retribui- vos cumprimentos e envia- vos saudares. Mal nos ouviu, mandou suspender todas as levas do sobrinho, que julgava serem preparaes contra o Polaco, mas 
que, certo, depois soube visarem Vossa Alteza. Indignado com tamanho desrespeito  sua idade e ao prprio achaque da velhice, mandou vir Fortimbrs preso, que lhe 
obedece prontamente, e aps ser admoestado por Noruega, promete ao tio que jamais as foras empregaria contra Vossa Alteza, com o que o velho Noruega, jubiloso, 
trs mil coroas de penso lhe outorga, com a permisso de usar contra o Polaco justamente os soldados alistados, ao lado do pedido aqui explanado, (Entrega uma carta.) 



de que vos seja grato o livre trnsito dessas tropas por vosso territrio em condies de inteira segurana, contidas nesta carta. 



O REI: Muito bem; vamos l- la com a calma necessria, responder- lhe e pensar sobre a matria. Agradecemos vossos bons servios. Agora descansai; cearemos juntos. 
Bem- vindos ao meu lar. 



(Saem Voltimando e Cornlio.) POLNIO: Foi bem solucionada essa pendncia. Meu rei, minha senhora: pretender explicar o que seja a majestade ou o dever, porque o 
dia  dia e a noite  noite, e o tempo  tempo, vale o mesmo que malgastar o dia, a noite e o tempo.  certo: a conciso  a alma do esprito, como a prolixidade 
os seus suportes e flores exteriores. Vou ser breve. Vosso filho est louco; sim,  o termo mais acertado; pois em que consiste a loucura, seno em sermos loucos? 
Que seja. 



A RAINHA: Mais matria, menos arte. POLNIO: Juro que no fao uso de arte alguma. Que  louco,  certo;  certo e mete pena. Mete pena ser certo; ruim anttese. 
Pois deixemo- la; quero falar simples. Louco  como lhe chamo; s nos falta descobrir qual a causa desse efeito, ou melhor: qual a causa do defeito, que o efeito 
defeituoso tem sua causa. Assim ficou; o resto  como segue. Considerai: Tenho uma filha - tenho, enquanto  minha - a qual, fiel  obedincia que me deve, notai 
bem, me deu isto. Ora, conclu: "Ao dolo de minha alma,  



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divina e embelezada Oflia". Expresso horrorosa e banal: Embelezada! Muito banal. Mas ouvi at ao fim: "Ao seu seio cndido e delicado, estas, etc." 



A RAINHA: Hamlet lhe enviou isso? P0LNI0: Senhora, mais pacincia; direi tudo. "Duvida da luz dos astros, de que o Sol tenha calor, duvida at da verdade, mas confia 
em meu amor. Querida Oflia: no sou muito forte na contagem das slabas: no possuo a arte de medir os meus suspiros; mas que te amo muitssimo, infinitamente, 
podes crer- me. Adeus. O teu para sempre, querida menina, enquanto esta mquina lhe pertencer, Hamlet." Eis o que minha filha me contou, por obedincia; e mais: 
suas instantes declaraes, segundo o modo, o tempo e as oportunidades. 



O REI: E ela, como o acolheu? POLNIO: Que pensais, senhor, de mim? O REI: Que sois pessoa honrada e de confiana. POLNIO: Pois prov- lo- ei. Que haveis de pensar, 
se eu visse alar o vo amor to frvido - e o percebi, vos digo, antes de minha filha mo revelar - que pensareis, ou a minha majestade aqui presente, se eu tivesse 
servido de carteira ou pasta de papis, ou ento piscado ao corao, ficando quieto e mudo, e indiferente contemplasse o caso? Que pensareis? No; pus- me em campanha, 
e falei deste modo  senhorita: "Lorde Hamlet est acima de tua esfera; no pode ser", e dei- lhe bons conselhos para que ela o evitasse da em diante, recusasse 
recados e presentes. Ps- se ela a aproveitar- se dos conselhos, e ele para ser breve - repelido, cai em melancolia a que se segue jejum, falta de sono, abatimento 
e distrao. E assim, piorando sempre, cai na loucura em que ora se debate e nos punge. 



O REI: Pensais, ento, seja isso? A RAINHA: Pode ser; bem plausvel. P0LNI0: J aconteceu - anseio por sab- lo - ter eu dito: "Tal coisa  deste modo", que assim 
no fosse? O REI: No, que o saiba. POLNIO (indicando a cabea e os ombros) - Arrancai esta destes, se isso  falso. Pelo rasto descubro onde se encontra escondida 
a verdade, ainda que seja no prprio centro. 



O REI: E como comprov- lo? P0LNI0: Sabeis que ele passeia horas seguidas aqui na galeria. A RAINHA:  hbito seu. POLNIO: Mandarei minha filha vir falar- lhe; 
ns ficamos atrs desta cortina. Observai bem os fatos; se a no ama, mudai- me da funo de conselheiro para a de carroceiro ou campons. 



O REI: Faamos a experincia. A RAINHA: Mas vede. Como  triste! O pobrezinho vem lendo um livro! P0LNI0:  urgente; deveis ambos sair, eu vos suplico. Vou falar- 
lhe. 



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(Saem o Rei, a Rainha e os criados.) (Entra Hamlet, lendo.) Como passa o meu bom prncipe Hamlet? HAMLET: Bem, graas a Deus. P0LNI0: Conheceis- me, milorde? HAMLET: 
Perfeitamente; sois um peixeiro. P0LNI0: Eu, no, milorde. HAMLET: Pois quisera que fsseis to honesto. P0LNI0: Honesto, prncipe? HAMLET: Sim, porque do jeito 
em que o mundo anda, ser honesto equivale a ser escolhido entre dez mil. 



P0LNI0:  muito certo isso, prncipe. HAMLET: Porque, se o sol gera vermes no cadver de um co, carnia muito bela para ser beijada... No tendes uma filha? 



POLNIO: Tenho, milorde. HAMLET: Ento no a deixeis passear ao sol; a concepo  uma bno; no porm, como vossa filha pode conceber. Cuidado, amigo! 



P0LNI0: Que quereis dizer com isso? ( parte.) Sempre com a idia em minha filha. No entanto, a princpio no me reconheceu, tendo- me tomado por um peixeiro. O 
mal j vai longe. Mas, para ser franco, na minha mocidade o amor me fez sofrer bastante. Cheguei quase a esse ponto. Vou falar- lhe outra vez. Que  que o meu prncipe 
est lendo? 



HAMLET: Palavras, palavras, palavras... P0LNI0: A que respeito, prncipe? HAMLET: Entre quem? P0LNI0: Refiro- me ao assunto de vossa leitura, prncipe. HAMLET: 
Calnias, meu amigo. Este escravo satrico diz que os velhos tm a barba grisalha, a pele do rosto enrugada, que dos olhos lhes destila mbar tenue e goma de ameixeira, 
sobre carecerem de esprito e possurem pernas fracas. Mas embora, senhor, eu esteja ntima e grandemente convencido da verdade de tudo isso, no considero honesto 
public- lo; por que se pudsseis ficar to velho quanto eu, sem dvida alguma andareis para trs como caranguejo. 



POLNIO ( parte) - Apesar de ser loucura, revela mtodo. No quereis sair do vento, prncipe? 



HAMLET: Entrar na sepultura? 



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POLNIO: Realmente, desse modo saireis do vento. ( parte.) Como so agudas, no raro, as suas respostas!  uma felicidade da loucura, algumas vezes, felicidade 
que a razo e o bom senso no alcanam com a mesma facilidade. Vou deix- lo, a fim de arranjar maneira de que se encontre com minha filha. Meu muito digno senhor, 
desejo humildemente pedir permisso para despedir- me. 



HAMLET: Pois no; no podeis pedir coisa que eu cedesse de melhor boa vontade; exceto a vida, exceto a vida, exceto a vida. 



P0LNI0: Passai bem, meu prncipe. (Retirando- se.) HAMLET: Esses velhos cacetes e sem miolo! (Entram Rosencrantz e Guildenstern.) POLNIO: Procurais lorde Hamlet? 
Est aqui. ROSENCRANTZ: Deus vos guarde, senhor. (Sai Polnio.) GUILDENSTERN: Nobre senhor... ROSENCRANTZ: Meu querido prncipe... HAMLET: Caros amigos! Como passais, 
Guildenstern? Ah, Rosencrantz! Bons amigos, como ides passando? 



ROSENCRANTZ: Como filhos medocres da terra. GUILDENSTERN: Felizes por no o sermos em demasia. No somos o boto mais alto do gorro da Fortuna. 



HAMLET: Nem a sola de seus sapatos? R0SENCRANTZ: Nem isso, prncipe. HAMLET: Ento viveis na zona da cintura, ou no meio de seus favores? GUILDENSTERN: De fato, 
vivemos em sua intimidade. HAMLET: Nas partes secretas da Fortuna? Realmente,  uma meretriz. Que novidades h? ROSENCRANTZ: Nenhuma, prncipe; a no ser que o mundo 
se tornou honesto. HAMLET: Nesse caso, aproxima- se o dia do Juzo. Mas para ficarmos no caminho trilhado da amizade, que vos trouxe a Elsinor? 



ROSENCRANTZ: Fazer- vos uma visita, prncipe; nada mais. HAMLET: Sou um mendigo que sofre de penria at de agradecimentos. Contudo, agradeo- vos; com a certeza, 
meus caros, de que esses agradecimentos j sero caros demais por um real. No fostes chamados? Viestes de moto prprio? Trata- se de visita espontnea? Vamos, vamos! 
Sede sinceros comigo; dizei- me a verdade. 



GTJILDENSTERN Que poderemos dizer, senhor? 



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HAMLET: Qualquer coisa, contanto que sirva ao caso. Fostes chamados; leio em vosso olhar uma espcie de confisso, que a modstia que vos  prpria no consegue 
mascarar. Sei perfeitamente que o bom rei e a rainha mandaram chamar- vos. 



ROSENCRANTZ: Com que fim, senhor? HAMLET:  o que ireis dizer- me. Mas, conjuro- vos pelos direitos de nossa camaradagem, pela consonncia da idade, pelas obrigaes 
de nossa sempre comprovada afeio e por tudo de mais caro que pudesse ser invocado por um orador mais convincente do que eu; sede sinceros comigo: fostes ou no 
fostes chamados? 



ROSENCRANTZ: ( parte para Guildenstern) - Que dizeis a isso? HAMLET ( parte): No vos perco de vista. - Se me tendes amizade, nada de evasivas. GUILDENSTERN: De 
fato, prncipe, fomos chamados. HAMLET: Vou dizer- vos o motivo; desse modo, antecipando- se minhas presunes a vossas declaraes, no oscilar no mnimo a discrio 
que deveis ao rei e  rainha. De tempos a esta parte - por motivos que me escapam - perdi toda a alegria e descuidei- me dos meus exerccios habituais. To grave 
 o meu estado, que esta magnfica estrutura, a terra, se me afigura um promontrio estril; este maravilhoso dossel - ora vede - o ar, este excelente firmamento 
que nos cobre, este majestoso teto, incrustado de ureos fogos, tudo isto, para mim no passa de um amontoado de vapores pestilentos. Que obra- prima, o homem! Quo 
nobre pela razo! Quo infinito pelas faculdades! Como  significativo e admirvel na forma e nos movimentos! Nos atos quo semelhante aos anjos! Na apreenso, como 
se aproxima dos deuses, adorno do mundo, modelo das criaturas! No entanto, que  para mim essa quintescncia de p? Os homens no me proporcionam prazer; sim, nem 
as mulheres, apesar de vosso sorriso querer insinuar o contrrio. 



ROSENCRANTZ: No pensei em semelhante coisa, prncipe. HAMLET: Ento, por que sorristes, quando eu disse que os homens no me proporcionam prazer? ROSENCRANTZ: Por 
pensar que, se isso acontece, os atores vo ter uma recepo de quaresma. Apanhamo- los em caminho; vm para oferecer- vos os seus servios. 



HAMLET: Ser bem- vindo o que representa o rei; Sua Majestade receber as minhas homenagens; o cavalheiro andante far uso do florete e do escudo; o amante no suspirar 
de graa; o caprichoso ir em paz at ao fim do seu papel, o bobo far rir aos que tiverem pulmes que disparem ao menor toque, as damas exporo livremente o seu 
pensar, para que o verso branco no fique estropiado. Que espcie de atores so eles? 



ROSENCRANTZ: Os mesmos de que tanto gostveis: os atores da cidade. HAMLET: E por que esto viajando? Se ficassem fixos, s poderiam ganhar, assim na reputao como 
em vantagens materiais. 



ROSENCRANTZ: Penso ser isso resultado da ltima sedio. HAMLET: Ainda gozam de conceito igual ao do tempo em que eu estava na cidade? 



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ROSENCRANTZ: No tanto, meu senhor. HAMLET: E qual a causa? Ficaram enferrujados? ROSENCRANTZ: No; esforam- se como de costume; mas apareceu por a uma ninhada 
de crianas, uns frangotes que trazem a pblico todas as particularidades da questo, pelo que so barbaramente aplaudidos. Esto agora em moda, cacarejando de tal 
maneira nos teatros comuns - como eles lhes chamam - que muita gente de espada receia ir l, com medo das penas de pato. 



HAMLET: Como assim! So crianas? E quem os mantem? Quem lhes paga ordenados? S exercero a arte enquanto puderem cantar? No diro mais tarde, se se tornarem atores 
comuns - o que  de presumir, uma vez que lhes faltam maiores cabedais - no diro que os escritores abusaram deles, fazendo os declamar contra seu prprio futuro? 



ROSENCRANTZ Em verdade, de parte a parte no tem faltado matria para brigas, sem que o povo revele escrpulos em espica- los. poca houve em que a pea nada rendia, 
se o poeta e o ator no fossem s vias de fato com seus adversrios. HAMLET:  possvel? 



GUILDENSTERN: Oh! Tem havido grande desperdcio de inteligncia. HAMLET: E os meninos, carregaram os louros da vitria? R0SENCRANTZ: Foi, realmente, o que se deu, 
milorde; carregaram Hrcules e mais o seu fardo. HAMLET: No admira; meu tio  rei da Dinamarca, e aqueles que lhe faziam caretas em vida de meu pai, do agora vinte, 
quarenta, cinqenta, e at cem ducados por seu retrato em miniatura. Por minha vida! H algo de sobre- natural em tudo isso. Assim pudesse a filosofia descobri- 
lo. 



(Ouve- se toque de clarins.) GUILDENSTERN: So os atores que chegam. HAMLET: Senhores, sois bem- vindos a Elsinor. Apertemo- nos as mos; os cumprimentos e cortesias 
so as pertenas das boas- vindas. Consenti que vos sade deste modo, para que minha atitude em relao aos atores - e posso assegurar- vos que vai ser de brilhante 
aparncia - no parea acolhimento mais afetuoso do que o que vos dispenso. Sois bem- vindos; mas meu tio- pai e minha tia- me se enganaram. 



GUILDENSTERN: Em qu, senhor? HAMLET: Eu s fico louco quando o vento sopra de nornoroeste; com vento sul, distingo perfeitamente um falco de uma gara. 



(Entra Polnio.) P0LNI0: Meus cumprimentos, senhores. HAMLET: Escuta, Guildenstern; e tu tambm; para cada ouvido um ouvinte: esse beb grande que estais vendo, 
ainda no saiu dos cueiros. 



ROSENCRANTZ: Nesse caso, voltou a us- los, porque dizem que a velhice  uma segunda infncia. HAMLET: Sou capaz de adivinhar que vem falar- me dos atores. Tendes 
razo, senhor; foi justamente na 



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manh de segunda- feira. P0LNI0: Meu senhor, tenho uma notcia a dar- vos. HAMLET: Meu senhor, tenho uma notcia a dar- vos: quando Roscius era ator em Roma... 
P0LNI0: Os atores acabam de chegar, prncipe. HAMLET: Lar, lar... P0LNI0: Palavra de honra. HAMLET: Ento, cada um veio montado na sua besta. P0LNI0: So os 
melhores do mundo para tragdia, comdia, histria, pastoral, comdia pastoral, pastoral histrica, pastoral trgico- histrica, trgicocmico- histrica, cenas 
sem diviso ou poesia sem limite. Para eles, Sneca no  muito pesado nem Plauto leve demais. So nicos, tanto para ler como no improviso. 



HAMLET:  Jeft, juiz de Israel, que tesouro possuas! P0LNI0: Que tesouro era, prncipe? HAMLET: Ora... Tinha uma filha, nada mais, que ele adorava sobre tudo. 
P0LNI0 ( parte): Sempre com minha filha na idia. HAMLET: No tenho razo, velho Jeft? P0LNI0: Se me chamais de Jeft, senhor, tenho uma filha a quem adoro sobre 
todas as coisas. HAMLET: No  essa a conseqncia. P0LNI0: Qual ser, prncipe? HAMLET: Ora, A sorte s ps o que Deus disps. O resto, sabeis muito bem: Da ter- 
se dado o que era esperado. A primeira parte dessa cano de Natal vos informar melhor; mas a vem vindo o resumo do meu discurso. 



(Entram quatro ou cinco atores.) Bem- vindos, senhores; sois todos bem- vindos. Alegro- me ver- te com sade. Bem- vindos, bons amigos. Ol, meu velho amigo! Da 
ltima vez que te vi, no tinhas essas franjas no rosto. Vieste  Dinamarca para pegar- me pela barba? Oh! a minha menina e senhora! Por Nossa Senhora, Vossa Senhoria 
est mais perto do cu do que da ltima vez que a vi, a diferena de um chapim. Queira Deus que no tenha acontecido com a voz como com as moedas que so retiradas 
da circulao, por ficarem rachadas junto da orla. Senhores, sede todos bem- vindos. Faamos, porm, como os falcoeiros franceses, que solam contra tudo o que vm. 
Linguagem direta: dai- me uma amostra de vossa arte, um discurso bem pattico. 



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PRIMEIRO ATOR: Qual ser, prncipe? HAMLET: De uma feita ouvi- te declamar um trecho que nunca foi levado  cena, ou, quando muito, uma nica vez. Lembra- me perfeitamente; 
a pea no agradou aos milhes; era caviar jogado ao povo. Mas, segundo o meu modo de ver e o de pessoas, cuja opinio no assunto  mais autorizada do que a minha, 
era uma pea excelente, com boa disposio de cenas e escrita com tanta sobriedade quanta argcia. Recorda- me ter ouvido a algum que os versos no continham nada 
de picante para torn- los aceitveis, e que nenhuma expresso traa afetao por parte do autor; o estilo foi qualificado de honesto, to sadio quanto agradvel, 
e aprazvel sem rebuscamentos. Apreciava muitssimo certa passagem, e fala de Enias a Dido, especialmente quando ele trata do assassnio de Pramo. Se a tens de 
memria... Comea pela frase... Espera um pouco... Deixa ver... Como tigre da Hircnia, o feroz Pirro... No, no  isso. Comea com Pirro: Esse Pirro feroz, que 
armas trazia da cor do prprio intenso, igual  noite. que o envolvia no ventre do cavalo sinistro e malfadado, a negra forma com brases mais sinistros ora cobre: 
da cabea at aos ps  todo rubro; enfeita- o horrendamente o triste sangue dos pais, das mes, das filhas, dos filhinhos, ressecado nas ruas abrasadas, que emprestam 
uma luz maldita e brbara a seus crimes nefandos. A arder de ira, empastado de sangue coagulado, os olhos a brilharem quais carbnculos, Pirro, o maldito, busca 
o venerando Pramo. Agora prossegue. 



P0LNI0: Por Deus, prncipe; muito bem declamado; boa cadncia e discrio. PRIMEIRO ATOR: Conseguiu por fim ach- lo, a lutar sem vantagem contra os gregos. Sua 
antiquada espada, ao brao infensa, fica onde cai, rebelde a seus mandados. Em duelo desigual, Pirro o acomete; mas ao simples sibilo de seu gldio, tomba o velho 
enervado. Exnime, lio pareceu ressentir- se desse golpe: dobra at  base o pico de suas chamas, e com medonho estrondo prende o ouvido de Pirro. Vede! A espada 
que j vinha baixando sobre a cndida cabea do venerando Pramo, parece que o prprio ar a detm: desta arte, Pirro, qual tirano em pintura, fica imvel, como que 
neutro entre a vontade e o brao, sem fazer nada. Mas, tal como pouco antes das tormentas silncio em todo o cu, calmas as nuvens, os ventos sem falar, e a terra 
embaixo to quieta quanto a morte - quando o raio de sbito fuzila: assim, depois da parada de Pirro, a despertada vingana o compeliu para outros feitos. Os malhos 
dos Ciclopes nunca as armas de Marte percutiram, fabricadas para ampararem sempre, com to pouco remorso, como bate a espada rubra de Pirro sobre Pramo. Fortuna! 
fora, meretriz!  deuses do conselho geral, tirai- lhe a fora! Quebrai pinas e raios de seu carro, e fazei do alto cu rolar o cubo para o centro do inferno! 



P0LNI0: Acho muito comprido. HAMLET: Enviai- a, ento, ao barbeiro, para que a corte juntamente com vossa barba. Continua, peo- te eu; a no ser em farsas ou histrias 
obscenas, ele adormece logo. Prossegue; cheguemos logo a Hcuba. 



PRIMEIRO ATOR: Oh! Quem visse a rainha encapuzada! POLNI0: No fica mal; rainha encapuzada; vai muito bem. PRIMEIRO ATOR: Descala corre, as chamas ameaando; as 
lgrimas a cegam; por diadema cinge apenas um trapo, e, como vestes, sobre os lombos delgados e sofridos, um cobertor, s pressas apanhado. Quem visse tal, com lngua 
envenenada, acusara a Fortuna de traidora. Mas se os deuses, nessa hora, a contemplassem, quando ela a Pirro deparou no esporte maligno de cortar do esposo os membros: 
o clamor subitneo de sua mgoa - se os mortais no lhe so de todo estranhos - faria enlanguescer os 



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olhos quentes do cu e os prprios deuses se apiedarem. P0LNIO: Vede como ele muda de cor e tem os olhos marejados de lgrimas. No prossigas, peo- te. HAMLET: 
Est bem; depois me dirs o resto. Caro senhor, quereis incumbir- vos da hospedagem destes atores? Mas tomai nota: que sejam bem tratados, porque so o espelho e 
a crnica resumida da poca. Ser- vos- ia prefervel um ruim epitfio depois de morto, a andardes em vida difamados por eles. 



POLNIO: Pois no, prncipe; hei de trat- los de acordo com seu merecimento. HAMLET: Com a breca, homem! Muito melhor! Se fsseis tratar todas as pessoas de acordo 
com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratai deles de acordo com vossa honra e dignidade. Quanto menor o seu merecimento, maior valor ter a 
vossa generosidade. Levai- os. 



P0LNI0: Vamos, senhores. HAMLET: Amigos, acompanhai- o. Amanh teremos representao. (Sai Polnio com os atores, com exceo do primeiro ator.) Ouviste, velho 
amigo, podes representar a pea "A Morte de Gonzaga"? PRIMEIRO ATOR: Perfeitamente, senhor. HAMLET: Ento ser amanh  noite. E ser- te-  possfvel, em caso de 
necessidade, decorar um discurso de doze ou dezesseis linhas, que vou escrever, para insertar na pea?  possvel? 



PRIMEIRO ATOR: Perfeitamente, meu senhor. HAMLET: Muito bem; acompanha aquele senhor; mas peo- te que no zombes dele. (Sai o primeiro ator.) Meus bons amigos, 
vou deix- los at  noite. Sois bem- vindos a Elsinor. ROSENCRANTZ: Meu bom senhor! (Saem Rosencrantz e Guildenstern.) HAMLET: Que Deus os acompanhe. Enfim, sozinho! 
Que velhaco sou eu, que vil escravo! Pois no ser monstruoso? Este ator pde, numa simples fico, num sonho apenas de paixo, forar a alma aos seus preceitos, 
a ponto de fugir- lhe a cor do rosto, marejarem- lhe os olhos, o conspecto confundir- se- lhe, a voz tornar- se trmula, e toda a compostura conformar- se s suas 
influies. Tudo por nada, por Hcuba! Que  ele de Hcuba, Hcuba que  dele, para chorar por ela? Que faria, se tivesse, como eu, deixas violentas? Inundara de 
lgrimas o palco, rasgara o ouvido a todos com seus gritos; assombrados deixara os inocentes, insanos os culpados, confundidos os ignorantes; sim, deixara atnitos 
os sentidos usuais da vista e ouvido. Ao passo que eu, um parvo feito s de lama, um nscio, como um joo- sonhador, sem nenhum plano de vingana, me calo, quando 
a vida preciosa e o trono um rei a perder veio por maneira to brbara e maldita. Serei covarde? Quem me lana o apodo de vilo? a cabea me abre em duas? a barba 
arranca- me e atira- ma no rosto? puxa- me do nariz? de mentiroso me acoima at os pulmes? Quem me faz isso? Ah! Fora bem feito. E a causa no  outra: tenho sangue 
de pombo, o fel me falta que a opresso torna amarga, ou j teria dado as entranhas desse escravo a todos os abutres do cu. Vilo 



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nojento, sanguinrio, traidor, devasso, estril! Oh vingana! Oh! Que grande asno eu sou! Como  ser bravo! Filho de um pai querido, assassinado, a quem o inferno 
e o cu mandam vingar- se, e aliviar- me a falar como uma simples meretriz, a insultar como uma criada! Que vergonha! Vamos, cabea, a postos! Tenho ouvido dizer 
que os criminosos, quando assistem a representaes, de tal maneira se comovem com a cena, que confessam na mesma hora em voz alta seus delitos, pois embora sem 
lngua, o crime fala por modo milagroso. Esses atores iro representar para meu tio a morte de meu pai. Hei de observar- lhe os olhos e sondar- lhe a alma at o 
fundo. Se se assustar, conheo o meu caminho. Talvez que o esprito que eu vi no passe do demnio, que pode assumir formas atraentes. Sim, talvez mesmo tencione 
perder- me, aproveitando- se de minha melancolia e pouca resistncia, como si proceder com tais espritos. Preciso de razes mais convincentes do que isso tudo. 
E a pea  a coisa, eu sei, com que a conscincia hei de apanhar o rei. 



(Sai.) ATO III Cena I Um quarto no castelo. Entram o Rei, a Rainha, Polnio, Oflia, Rosencrantz e Guildenstern. O REI: No tivestes ensejo, na conversa, de saber 
o que o ps nessa desordem que seus dias de calma tanto abala com demncia inquieta e perigosa? 



ROSENCRANTZ: Confessa que se sente perturbado: mas a causa, persiste em no diz- la. GUILDENSTERN: No o achamos disposto a ser sondado; com a astcia da loucura, 
se esquivava sempre que pretendamos lev- lo a falar de si mesmo. 



A RAINHA: Como vos recebeu? ROSENCRANTZ: Como perfeito cavalheiro. GUILDENSTERN: Conquanto algo forado. ROSENCRANTZ: Avaro em perguntar, mas respondendo com liberalidade. 
A RAINHA: Convidaste- o para algum passatempo? ROSENCRANTZ: Aconteceu, senhora, que encontramos em caminho uns atores. A notcia, recebeu- a com mostras de alegria. 
J se acham no palcio. Penso, mesmo, que vo representar para ele,  noite. 



P0LNI0:  verdade; pediu- me que falasse com Vossas Majestades, concitando- vos a ver e ouvir a pea. O REI: De todo o corao; muito me alegra sab- lo assim disposto. 
Continuai, cavalheiros, a anim- lo, despertando- lhe o gosto para as festas. ROSENCRANTZ: Pois no, senhor! (Saem Rosencrantz e Guildenstern.) O REI: Doce Gertrudes, 
deixa- nos; mandamos vir secretamente a Hamlet, para que ele se encontre com Oflia, como por acidente. Eu e seu pai, legtimos espias, vendo sem sermos vistos, 
poderemos avaliar do 



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encontro imparcialmente e concluir, do seu procedimento, se  amor, em verdade, ou se outra  a causa que o faz sofrer assim. 



A RAINHA: J me retiro. No que te toca, Oflia, s desejo que seja a tua beleza a feliz causa da loucura de Hamlet, pois espero que tua virtude o leve  trilha antiga, 
para honra de ambos. 



OFLIA: Eu, de mim, o espero, tambm, minha senhora. (Sai a Rainha.) P0LNI0: Chega, Oflia, para aqui... Majestade, ora busquemos nosso lugar. E tu, l neste livro; 
a leitura pretexto ser para tua solido. Freqentes vezes somos passveis de censura, pois abundam provas sobre isso, de que com bondade simulada e aes pias conseguimos 
tornar aucarado o prprio diabo. 



O REI: ( parte): Quo verdadeiro! Como essas palavras me chicoteiam fundo a conscincia! O rosto rebocado das rameiras no  mais feio, sob a artificial beleza, 
do que a minha ao debaixo do verniz com que a enfeitam meus discursos. Oh fardo horrvel! 



P0LNIO: Ei- lo que chega, meu senhor; saiamos. (O Rei e Polnio saem.) (Entra Hamlet.) HAMLET: Ser ou no ser... Eis a questo. Que  mais nobre para a alma: suportar 
os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar- se contra um mar de desventuras e dar- lhes fim tentando resistir- lhes? Morrer... dormir... mais nada... 
Imaginar que um sono pe remate aos sofrimentos do corao e aos golpes infinitos que constituem a natural herana da carne,  soluo para almejar- se. Morrer.., 
dormir... dormir... Talvez sonhar...  a que bate o ponto. O no sabermos que sonhos poder trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, 
nos pe suspensos.  essa idia que torna verdadeira calamidade a vida assim to longa! Pois quem suportaria o escrnio e os golpes do mundo, as injustias dos mais 
fortes, os maus- tratos dos tolos, a agonia do amor no retribudo, as leis amorosas, a implicncia dos chefes e o desprezo da inpcia contra o mrito paciente, 
se estivesse em suas mos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se no por temer algo aps a morte - terra desconhecida 
de cujo mbito jamais ningum voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refgio noutros males ignorados? De todos 
faz covardes a conscincia. Desta arte o natural frescor de nossa resoluo definha sob a mscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante 
dessas reflexes, e at o nome de ao perdem. Mas, silncio! A vem vindo a bela Oflia. Em tuas oraes, ninfa, recorda- te de meus pecados. 



OFLIA Como tem passado, prncipe, no correr de tantos dias? HAMLET: Muitssimo obrigado; bem, bem, bem. OFLIA: Tenho algumas lembranas suas, prncipe, que h 
muito devolver eu desejara; receba- as, por favor. 



HAMLET: Eu, no; eu, no; eu nunca te dei nada. OFLIA: O prncipe bem sabe que  verdade, e com palavras de to doce anlito, que o valor dos presentes aumentava. 
Mas, evolado o aroma, agora os trago. Os brindes se empobrecem, para uma alma 



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bem- nascida, de par com os sentimentos de quem os d. Ei- los aqui, meu prncipe. HAMLET: Ah! Ah! s honesta? OFLIA: Como assim, prncipe? HAMLET: s bela? OFLIA 
Que quer dizer Vossa Alteza com isso? HAMLET:  que se fores, a um tempo, honesta e bela, no deves admitir intimidade entre a tua honestidade e a tua beleza. 



OFLIA Mas, prncipe, poder haver melhor companhia para a beleza do que a honestidade? HAMLET: Realmente, que a beleza, com o seu poder, levaria menos tempo para 
transformar a honestidade em alcoviteira do que esta em modificar a beleza  sua imagem. J houve poca em que isso era paradoxo; mas agora o tempo o confirma. Cheguei 
a amar- te. 



OFLIA: Em verdade, o prncipe me fez acreditar nisso. HAMLET: No deverias ter- me dado crdito, porque a virtude no pode enxertar- se em nosso velho tronco, sem 
que deste no remanesa algum travo. Nunca te amei. 



OFLIA: Tanto maior  a minha decepo. HAMLET: Entra para um convento. Por que hs de gerar pecadores? Eu, de mim, considero- me mais ou menos honesto, mas poderia 
acusar- me de tais coisas, que teria sido melhor que minha me no me houvesse dado  luz. Sou orgulhoso, vingativo, cheio de ambio, e disponho de maior nmero 
de delitos do que de pensamentos para vesti- los, imaginao para dar- lhes forma, ou tempo para realiz- los. Para que rastejarem entre o cu e a terra tipos como 
eu? Todos somos consumados velhacos; no deves confiar em ningum. Toma o caminho do convento. Onde se encontra teu pai? 



OFLIA: Em casa, alteza HAMLET: Que lhe fechem as portas, a fim de impedirem que faa papel de tolo, a no ser em sua prpria casa. Adeus. 



OFLIA: Ajuda- o, cu de bondade. HAMLET: Se tiveres de casar, dou- te por dote a seguinte maldio: ainda que sejas casta como o gelo e pura como a neve, no escapars 
 calnia. Vai; entra para o convento; adeus. Ou ento, se tiveres mesmo de casar, escolhe um nscio para marido, porque os assisados sabem perfeitamente em que 
monstros as mulheres os transformam. Para o convento, vai; e isso depressa. Adeus. 



OFLIA: Poderes celestiais, restitu- lhe a razo! HAMLET: Conheo muito bem vossas pinturas; Deus vos deu um rosto e arrumais outro; andais aos pulinhos e com requebros, 
falais cheias de esses e dais nomes indecentes s criaturas de Deus, fazendo vossa leviandade passar por inocncia. Vai; no insisto, porque foi isso que me deixou 
louco. O que digo  que no teremos casamentos; os que j so casados, com exceo de um, ho de continuar vivos; os de mais, prosseguiro como esto. Para o convento; 
vai! 



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(Sai.) OFLIA: Que nobre inteligncia assim perdida! O olho do corteso, a lngua e o brao do sbio e do guerreiro, a mais florida esperana do Estado, o prprio 
exemplo da educao, o espelho da elegncia, o alvo dos descontentes, tudo em nada! E eu, a mais desgraada das mulheres, que saboreei o mel de suas juras musicais, 
ter de ver essa admirvel razo perder o som, qual sino velho, essa forma sem par, a flor da idade, fanada pela insnia!  dor sem fim! Ter j visto o que vi, e 
v- lo assim! 



(Entram o Rei e Polnio.) O REI: Qual amor! Sua doena no vem disso. Depois, o que ele disse, ainda que estranho, no parece loucura. Na alma dele algo a melancolia 
est chocando; e no duvido que o produto possa causar algum perigo, que  preciso prevenir. Da eu ter nisto assentado depressa: mand- lo- ei sem mais delongas 
 Inglaterra, a cobrar velhos tributos.  possvel que o mar, o novo clima e a diferena dos objetos venham a libert- lo dessa qualquer coisa com que o crebro 
dele se preocupa, alheando- o de si mesmo. Que pensais? 



POLNIO: H de ganhar com isso; porm creio que a origem e o comeo da tristeza vm de amor desprezado. Ento, Oflia? No precisas falar de lorde Hamlet; ouvimos 
tudo. Procedei, senhor, como entenderdes; mas, se achardes til, fazei que ele se encontre com a rainha depois da pea, para, a ss, falar- lhe sobre o que o traz 
assim. E que ela seja franca. Eu, de mim, se o consentis, me ponho a ouvi- los escondido. Se ela nada conseguir, envi- lo- ei sem mais demora para a Inglaterra, 
ou ento mandareis p- lo onde quer que a prudncia vos indique. 



O REI: Far- se-  dessa maneira.  sempre ousada a loucura dos grandes no vigiada. (Sai.) Cena II Entram Hamlet e alguns atores. HAMLET: Tem a bondade de dizer 
aquele trecho do jeito que eu ensinei, com naturalidade. Se encheres a boca, como costumam fazer muitos dos nossos atores, preferira ouvir os meus versos recitados 
pelo pregoeiro pblico. No te ponhas a serrar o ar com as mos, desta maneira; s temperado nos gestos, por que at mesmo na torrente e na tempestade, direi melhor, 
no turbilho das paixes,  de mister moderao para torn- las maleveis. Oh! Di- me at ao fundo da alma ver um latago de cabeleira reduzir a frangalhos uma 
paixo, a verdadeiros trapos, trovejar no ouvido dos assistentes, que, na maioria, s apreciam barulho e pantomima sem significado. D gana de aoitar o indivduo 
que se pe a exagerar no papel de Termagante e que pretende ser mais Herodes do que ele prprio. Por favor, evita isso. 



PRIMEIRO ATOR: Vossa Alteza pode ficar tranqilo. HAMLET: Tambm no  preciso ser mole demais; que a discrio te sirva de guia; acomoda o gesto  palavra e a palavra 
ao gesto, tendo sempre em mira no ultrapassar a modstia da natureza, porque o exagero  contrrio aos propsitos da representao, cuja finalidade sempre foi, 
e continuar sendo, como que apresentar o espelho  natureza, mostrar  virtude suas prprias feies,  ignomnia sua imagem e ao corpo e idade do tempo a impresso 
de sua forma. O exagero ou o descuido, no ato de 



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representar, podem provocar riso aos ignorantes, mas causam enfado s pessoas judiciosas, cuja censura deve pesar mais em tua apreciao do que os aplausos de quantos 
enchem o teatro. Oh! j vi serem calorosamente elogiados atores que, para falar com certa irreverncia, nem na voz, nem no porte mostravam nada de cristos, ou de 
pagos, ou de homens sequer, e que de tal forma rugiam e se pavoneavam, que eu ficava a imaginar terem sido eles criados por algum aprendiz da natureza, e pessimamente 
criados, to abominvel era a maneira por que imitavam a humanidade. 



PRIMEIRO ATOR: Quero crer que entre ns tudo isso est bem modificado. HAMLET: Faze uma reforma radical! Que os trues no digam mais do que o que lhes compete, 
pois h deles que vo a ponto de rir, somente para provocarem riso aos parvos, at mesmo em passagens com algo merecedor de ateno.  vergonhoso, sobre revelar 
ambio estpida por parte de quem se vale de semelhante recurso. Vai aprontar- te. 



(Entram Polnio, Rosencrantz e Guildenstern.) Ento, senhor, o rei ir ouvir a nossa pea? POLNIO: E a rainha tambm, sem nenhum atraso. HAMLET: Nesse caso, apressai 
os atores. (Sai Polnio.) No podereis ajud- lo nessa tarefa? ROSENCRANTZ E GUILDENSTERN: Com todo o gosto meu prncipe. HAMLET: Ol, Horcio! (Entra Horcio.) 
HORCIO: Aqui me tendes, senhor, s vossas ordens. HAMLET: Horcio, s a pessoa mais talhada para meu companheiro e confidente. HORCIO: Meu prncipe... HAMLET: 
No penses que  lisonja. Que fora de esperar que me emprestasses, se s tens como renda a tua alma grande, que te veste e alimenta? Por que a um pobre lisonjear? 
No; a lngua aucarada lambe as pompas estpidas; os gonzos moles dos joelhos dobram- se onde lucros advm do rastejar. Ests me ouvindo? Ds que minha alma cara 
foi senhora de julgar as pessoas, escolheu- te para si prpria, pois tens sido um homem que mostra no sofrer, sofrendo muito, que aceita indiferente bens e males 
do destino. Abenoado quem revela tal mistura de sangue e julgamento, e por isso jamais pode ser pfaro com que a Fortuna se divirta. Mostra- me o homem liberto 
das paixes; p- lo- ei no corao, no prprio corao do corao, tal como o fiz contigo. Mas basta. Hoje h espetculo ante o rei, com uma cena igual s circunstncias 
da morte de meu pai, como eu te disse. Quando chegar essa passagem, peo- te que com todas as foras de tua alma observes a meu tio. Se seu crime no se manifestar 
ante um discurso,  que era alma penada o que ns vimos e mais negras as minhas fantasias que a forja de Vulcano. Observa- o bem. Hei de os olhos cravar- lhe no 
semblante; juntaremos depois nossos juzos para julgar- lhe o aspecto. 



HORCIO: Bem, meu prncipe; se algo ele surrupiar durante a cena e conseguir fugir, pago o prejuzo. HAMLET: J vm chegando;  urgente disfararmos; vai para o 
teu lugar. 



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(Marcha dinamarquesa; clarins. Entram o Rei, a Rainha, Polnio, Oflia, Rosencrantz, Guildenstern e ou tras pessoas.) 



O REI: Como vive o nosso primo Hamlet? HAMLET: Otimamente, na verdade; da comida dos camalees; alimento- me de ar e entupo- me com promessas. Desse jeito no podereis 
engordar capes. 



O REI: Nada tenho que ver com semelhante resposta, Hamlet; essas palavras no me dizem respeito. HAMLET: E j agora, nem a mim, tambm. (A Polnio.) J representastes 
uma vez na Universidade, no mo dissestes? 



POLNIO:  certo, prncipe; e fui considerado bom ator. HAMLET: E que representastes? P0LNI0: Jlio Csar; era assassinado no Capitlio; Bruto me matava. HAMLET: 
Bem bruto era ele, para matar um bezerro capital desse porte. Os atores esto prontos? ROSENCRANTZ: Esto, prncipe; aguardam apenas vossas ordens. A RAINHA: Vem 
para o meu lado, querido Hamlet; senta- te perto de mim. HAMLET: No, minha me; o m deste metal tem mais poder. POLNIO (ao Rei): Oh! Oh! Observastes bem? HAMLET: 
Senhorita, poderei sentar- me no vosso regao? (Senta- se ao p de Oflia.) OFLIA: No, prncipe. HAMLET: Quero dizer, recostar a cabea em vosso regao? OFLIA: 
Sim, prncipe. HAMLET: Pensastes que eu estivesse usando linguagem do campo? OFLIA: No pensei nada, prncipe. HAMLET: Bonita idia, deitar- se a gente entre as 
pernas de uma donzela. OFLIA: Que idia, prncipe? HAMLET: Nada. OFLIA: O prncipe est hoje muito alegre. HAMLET: Quem, eu? OFLIA: O prncipe, pois no? 



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HAMLET: Sou apenas vosso bobo. Que pode uma pessoa fazer de melhor, a no ser ficar alegre? Vede minha me, como apresenta semblante prazenteiro; no entanto, meu 
pai morreu apenas h duas horas. OFLIA: No, prncipe; duas vezes dois meses. 



HAMLET: H tanto tempo assim? Ento que o diabo se cubra de luto, que eu vou vestir- me de zibelina. Oh cus! Morto h dois meses e ainda no esquecido? Nesse caso, 
h esperana de que a memria de um grande homem lhe sobreviva meio ano. Por Nossa Senhora, que trate de fundar igrejas, ou ningum pensar nele, como se deu com 
o cavalo de pau, cujo epitfio rezava: Pois oh! Pois oh! O cavalo de pau ficou esquecido! 



(Clarins.) Entra a pantomima: um rei e uma rainha, com mostras de muito afeto; a rainha abraa o rei e este a ela. A rainha se ajoelha diante do rei e por meio de 
gestos lhe assegura submisso. Ele a faz erguer- se e inclina a cabea sobre seu ombro; depois, senta- se sobre um banco de flores. Ao v- lo adormecido, ela o deixa. 
Logo depois, entra um indivduo que lhe tira a coroa, beija- a, despeja veneno no ouvido do rei e sai. Volta a rainha e, ao verificar que o rei morrera, d mostras 
de grande mgoa. O envenenador volta com duas ou trs pessoas, parecendo lamentar- se com a rainha. O corpo  removido. O envenenador requesta a rainha com presentes; 
a princpio, a rainha parece relutar, mas acaba aceitando o seu amor. 



(Saem.) OFLIA: Que significa isso, prncipe? HAMLET: Maroteira disfarada; significa infortnio. OFLIA: Sem dvida a pantomima serve de argumento  pea. (Entra 
o Prlogo.) HAMLET:  o que vamos ver por este fregus. Os atores no guardam segredo. Vereis como vo revelar tudo. 



OFLIA: Ir dizer- nos o que significam aqueles gestos? HAMLET: No s aqueles, mas quantos quiserdes representar- lhe. Se no ficardes acanhada, ele tambm no 
o ficar, para explicar- lhes o sentido. 



OFLIA: O prncipe  mau; o prncipe  mau; vou prestar ateno  pea. O PRLOGO: Para ns toda a indulgncia, para a tragdia e demncia de vossa alta pacincia. 
HAMLET: Isso  prlogo ou emblema de anel? OFLIA: Foi curto. HAMLET: Tal como o amor das mulheres. O REI DA PEA: Trinta vezes j o Sol o giro h feito por Tlus 
e Netuno, e com perfeito cmputo trinta vezes doze vezes a lua assinalou ao mundo os meses, ds que as mos Himeneu e Amor o afeto. nos ligaram num vnculo concreto. 



A RAINHA DA PEA: Que a luz e o Sol nos dem iguais jornadas, sem que as rosas do amor fiquem 



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fanadas. Mas to cansado te acho e to mudado da alegria primeira, certo, o estado normal em ti, que o susto ora se apossa de mim, sem que isso, alis, turvar- te 
possa, pois o amor, na mulher, se casa ao medo: ou grandes at ao fim, ou morrem cedo. J dei provas de ser, no amor, constante, mas se o amor  tranqilo, o medo 
 instante; um grande amor nos sustos se confirma; crescendo o medo, o amor tambm se afirma. 



O REI DA PEA: Muito cedo deixar- te me  foroso, que me oprime a fraqueza. No formoso mundo tens de viver, sempre acatada, porventura escolhida e muito amada por 
um segundo... 



A RAINHA DA PEA: Basta! Basta! Um feito de tal negror me condenara o peito. S se alegra com outro companheiro quem foi causa da morte do primeiro. 



HAMLET: ( parte): Isso  absinto. A RAINHA DA PEA: O interesse mesquinho, nunca o amor, do segundo consrcio  o causador. Fora o esposo matar do mesmo jeito a 
cada beijo do outro no seu leito. 



O REI DA PEA: Sei que s sincera; mas  bem freqente no cumprirmos a jura mais ardente. Da memria a inteno  simples serva; forte ao nascer, o tempo a no 
conserva; fruto que est no galho por ser duro, para cair por si quando maduro. Parece necessrio que no olvido se atire o que a ns prprios  devido. O que a paixo 
concebe de perfeito, suprimida a paixo fica desfeito. A violncia da dor ou da alegria com sua prpria atuao no dura um dia. Onde o prazer se exalta a dor se 
encolhe; um nada a dor extingue e o riso tolhe. O mundo passa;  natural, portanto, que com a fortuna o amor se altere tanto; pois  problema que ainda est sem 
norte, se a sorte guia o amor, ou o amor a sorte. Cai um dos grandes, somem- se os amigos; sobe um pequeno, adulam- no inimigos. Da ligar- se o amor sempre  fortuna; 
tem amigos quem nunca a outro importuna; pois quem ao falso amigo pede, v- se de um imigo aumentado, sem que o cresse. Mas, para terminar pelo comeo, entre a vontade 
e a sorte h sempre empeo. Nossos planos so frutos s do acaso; a idia  nossa; os fins, de cada caso. No digas que de novo no te casas; morto o esposo, o propsto 
bate asas. 



A RAINHA DA PEA: Que a luz o cu me negue; a terra, o po; a noite, a calma; o dia, distrao; que a esperana se mude em desespero; penitncia no crcere  o que 
eu espero. Que quanto enturva o rosto da alegria se me antolhe a afligir- me noite e dia. Repudiada seja eu por todo o povo, se, chegando a enviuvar, casar, de novo. 



HAMLET: E se ela quebrar o juramento? O REI DA PEA: Palavras bem solenes; mas, querida, deixa- me; sinto a fronte dolorida; quero dormir. (Adormece.) A RAINHA DA 
PEA: Repousa sossegado; que nenhuma aflio nos d cuidado. (Sai.) HAMLET: Que tal acha a pea, minha senhora? A RAINHA: Parece- me que a dama faz protestos demasiados. 
HAMLET: Oh! Mas ela  de palavra. 



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O REI: Ouviste o argumento? No contm nenhuma ofensa? HAMLET: No, no;  tudo por brinquedo; envenenam por brinquedo;  o que no existe no mundo, ofensa. 



O REI: Como se intitula a pea? HAMLET: "A Ratoeira"; mas, j se v, simples metfora. A pea se baseia na histria de um crime ocorrido em Viena; Gonzago  o nome 
do duque; Batista, o da mulher. Ides ver dentro de pouco: pura velhacaria. Mas, que importa? Nem Vossa Majestade, nem eu, que temos a conscincia limpa, somos atingidos. 
Os sendeiros que esperneiem; no estamos com o lombo pisado. 



(Entra um ator, no papel de Luciano.) Esse  um tal Luciano, sobrinho do rei. OFLIA: O prncipe serve muito bom de coro. HAMLET: Poderia servir de ponto numa vossa 
conversa com o namorado, se visse os movimentos dos tteres. 



OFLIA: O prncipe est muito afiado hoje, muito afiado. HAMLET: Havia de custar- vos gemidos embotar- me o fio. OFLIA: De bem para melhor; de mal para pior. HAMLET: 
Os maridos so desse jeito. Vamos, assassino, comea logo! Deixa tua cara amaldioada, peste, e principia de uma vez! Vamos. O corvo, em seu grasnar, chama a vingana! 



LUCIANO: Pensamentos escuros, droga a jeito, tempo oportuno, mos para esse feito, ningum perto... Bebida desprezvel, trs vezes  meia- noite com a terrvel maldio 
de Hcate mexida: neste corpo despeja os males que escondeste! 



(Despeja veneno no ouvido do Rei adormecido.) HAMLET: Envenena- o no jardim, por causa do reino; chama- se Gonzago. A histria existe; foi escrita em italiano primoroso. 
Vereis dentro de pouco como o assassino obtm o amor da mulher de Gonzago. 



OFLIA: O rei se levantou. HAMLET: Que  isso? Medo de um falso alarma de fogo? A RAINHA: Como passa o meu senhor? POLNIO: Suspendam a representao! O REI: Tragam- 
me luzes! Vamos- nos embora! (Saem todos, com exce de Hamlet e Horcio.) HAMLET: Que sangre o veado e ponha- se a fugir, enquanto descansa; uns precisam velar, 
outros dormir; desta arte o mundo avana. Uma cena como essa e mais uma floresta de penas - se algum dia a Fortuna se me tornar madrasta - e um par de rosetas nos 
sapatos rasos, no me assegurariam um lugar em qualquer matilha de comediantes? 



HORCIO: Com metade dos lucros, como no? 



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HAMLET: Nada disso, todo o lucro, pois bem sabes, Damon, que o prprio Jove este reino desfez; agora est no trono um verdadeiro... direi tudo?... um pavo. 



HORCIO: Podereis ter rimado. HAMLET: Meu bom Horcio! Aposto mil contra um na palavra do fantasma. Percebestes? HORCIO: Perfeitamente, prncipe. HAMLET: Na hora 
do veneno? HORCIO: Com a mxima ateno. HAMLET: Ah! Ah! Venha msica! Tragam os fiajols! Porque se a pea ao rei em nada agrada, no vale coisa alguma, est julgada. 
Vamos! Tragam msica! 



(Entram Rosencrantz e Guildenstern.) GUIDENSTERN: Meu bom senhor, concedei- me uma palavra. HAMLET: At uma historia inteira. GUILDENSTERN: O rei, senhor... HAMLET: 
Como vai ele passando? GUILDENSTERN: ... recolheu- se indisposto para seus aposentos. HAMLET: De bebida? GUILDENSTERN: No, senhor; de clera. HAMLET: Vossa sabedoria 
se revelaria mais opulenta, se contsseis isso ao seu mdico; porque se eu lhe aplicar uma purga, talvez lhe faa aumentar ainda mais a clera. 



GUILDENSTERN: Ponde ordem, meu bom senhor, em vossas palavras, sem vos desviardes tanto do propsito. 



HAMLET: J amansei; podeis falar. GUILDENSTERN: A rainha vossa me, que se acha muito consternada, mandou que vos procurasse. HAMLET: Pois sede bem- vindo. GUILDENSTERN: 
Essa cortesia no vem a propsito, prncipe. Se for de vosso agrado dar- me uma resposta sadia, desincumbir- me- ei do recado de vossa me; em caso contrrio, com 
vosso perdo e minha retirada darei por finda a misso a que vim. 



HAMLET: No me  possvel, senhor. GUILDENSTERN: Que  que vos  impossvel, prncipe? HAMLET: Dar- vos uma resposta sadia. Meu esprito est doente. Mas ponho a 
vossas ordens a resposta 



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que me for possvel, ou, como o dissestes, s ordens de minha me. Por isso, entremos logo no assunto. Minha me, eis dizendo... 



ROSENCRANTZ: Manda dizer- vos que vossa conduta lhe causou assombro e admirao. HAMLET: Oh filho estupendo, que chega a causar assombro  prpria me! Mas no calcanhar 
da admirao da me no segue nenhuma conseqncia? Vamos l. 



ROSENCRANTZ: Deseja falar- vos em seus aposentos, antes de vos recolherdes. HAMLET: Obedeceria, ainda que ela fosse dez vezes minha me. No tendes nenhum outro 
assunto a tratar comigo? 



ROSENCRANTZ: Houve tempo, prncipe, que me tnheis amizade. HAMLET: At hoje sou o mesmo; juro- o por estes gadanhos de ladro. ROSENCRANTZ: Meu bom senhor, qual 
 o motivo de vossa alterao? Pondes trancas em vossa liberdade, negando- vos a revelar a um amigo o motivo de vossa tristeza. 



HAMLET: Falta- me ser promovido. ROSENCRANTZ: Como  isso possvel, se contais com a palavra do prprio rei de que o sucedereis no trono da Dinamarca? 



HAMLET:  certo: mas, "Enquanto a grama cresce..." o provrbio j est enferrujado. (Entram alguns atores com flajols.) Oh, flajols! Deixa- me ver um. Falando- 
vos em particular, por que motivo me rodeais desse jeito, a tomar o meu faro, como se quissseis levar- me para alguma cilada? 



GUILDENSTERN. Oh, prncipe! Se o meu dever  ousado, minha amizade  incivil. HAMLET: No atino bem com o sentido. Mas, no quereis tocar nesta flauta? GUILDENSTERN: 
No posso, prncipe. HAMLET: Por obsquio. GIJILDENSTERN: Acreditai- me, prncipe, no posso. HAMLET: Fazei- me esse favor. GUILDENSTERN. No conheo uma s posio, 
prncipe. HAMLET:  to fcil quanto mentir. Com os quatro dedos e o polegar regulais estes orifcios; depois, bastar soprar, para que saia msica muito agradvel. 
Vede: aqui esto as chaves. 



GUILDENSTERN: Mas no est em mim tirar a menor harmonia, prncipe; no possuo essa habilidade. HAMLET: Ora vede que coisa desprezvel fazeis de mim. Pretendeis 
que eu fosse um instrumento em que podereis tocar  vontade, por presumirdes que conheceis minhas chaves. Tnheis a inteno de penetrar no corao do meu segredo, 
para experimentar toda a escala dos meus sentimentos, da nota mais 



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grave  mais aguda. No entanto, apesar de conter este instrumento bastante msica e de ser dotado de excelente voz, no conseguis faz- lo falar. Com a breca! Imaginais, 
ento, que eu sou mais fcil de tocar do que esta flauta? Dai- me o nome do instrumento que quiserdes; conquanto voz seja fcil escalavrar- me, jamais me fareis 
produzir som. 



(Entra Polnio.) Deus vos guarde, senhor. P0LNI0: Senhor, a rainha deseja falar- vos quanto antes. HAMLET: Estais vendo aquela nuvem em forma de camelo? P0LNI0: 
Pela Santa Missa! Parece, de fato, um camelo! HAMLET: Creio que parece mais uma doninha. P0LNI0:  certo; o dorso  de doninha. HAMLET: Ou uma baleia? POLNIO: 
Uma baleia, realmente; muito semelhante. HAMLET: Bem; se assim , irei ter com minha me neste momento. ( parte.) Esta gente brinca de doido comigo, ao ponto de 
arrebentar- me a pacincia. (Alto.) Irei neste momento. 



P0LNI0: Dir- lhe- ei isso mesmo. (Sai.) HAMLET: Neste momento  fcil de dizer. Deixai- me, amigos. (Saem todos, menos Hamlet.) Estamos na hora ttrica da noite 
em que se abrem os tmulos e o inferno lana no mundo a peste. Poderia beber, neste momento, sangue quente e realizar tais coisas que fariam tremer o prprio dia. 
Mas, silncio! Procuremos agora minha me. Corao, no te esquea o de quem s. Que neste peito firme jamais entre a alma de Nero; rspido, mas nunca desnaturado; 
espadas, s na lngua, sem que delas me valha: que se irmanem na hipocrisia a lngua e o corao. Se a palavra sair demais pesada, minha alma, no lhe ds forma 
adequada. 



(Sai.) Cena III Um quarto no castelo. Entram o Rei, Rosencrantz e Guildenstern. O REI: No me agrada. Alm disso, constitui perigo para ns deixar sem peias sua 
loucura. Assim, ide aprontar- vos, que vossas instrues mandarei logo e ele para a Inglaterra ir convosco. Nossa real dignidade no comporta os riscos que a toda 
hora seus caprichos fazem nascer. 



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GUILDENSTERN: Iremos aprontar- nos. O medo religioso e santo cuida da salvao de tantas existncias que se nutrem de Vossa Majestade. 



ROSENCRANTZ: A prpria vida singular precisa, com toda a fora e as armas do intelecto, defender- se de danos. Que dizer- se da alma de que depende sempre a vida 
de tanta gente? Nunca a majestade morre sozinha; qual voragem, chupa quanto est perto;  roda gigantesca que nos raios contm dez mil coisinhas encaixadas, e cuja 
queda implica a runa fragorosa das menores peas que se lhe prendem. O gemido do rei sempre  geral, sempre  alarido. 



O REI: Peo vos apresseis para a viagem; queremos pr grilhetas nesse medo que passeia to livre. ROSENCRANTZ E GUILDENSTERN: J nos vamos. (Saem Rosencrantz e Guildenstern.) 
(Entra Polnio.) P0LNI0: Ele j foi, senhor, para o aposento da rainha. Por trs do reposteiro vou pr- me a ouvi- los.  certeza, ela h de repreend- lo; e, conforme 
sabiamente dissestes,  preciso que outro ouvido que no o materno, pois a natureza f- lo parcial, escute o que falarem. Passai bem, meu senhor; chamar- vos- ei 
antes de vos deitardes, para dar- vos conta do que souber. 



O REI: Muito obrigado. (Sai Polnio.) Est podre o meu crime; o cu j o sente. A maldio primeira ps- lhe o estigma: fratricida. Rezar, no me  possvel, muito 
embora o pendor siga  vontade; a culpa imana vence o belo intento. Tal como algum que empreende dois negcios ao mesmo tempo, mostro- me indeciso sobre qual inicie, 
acontecendo vir ambos a perder. Se esta maldita mo de sangue fraterno se cobrisse, no haveria chuva suficiente no cu, para deix- la como a neve? Para que serve 
a Graa, se no serve para enfrentar o rosto do pecado? E a orao, no contem dupla virtude, de prevenir a queda e obter completo perdo para os que caem? Alo 
os olhos. Meu crime j passou; mas, que modelo de orao servir para o meu caso? "Perdoai- me o crime monstruoso e horrendo?" No pode ser, que me acho, ainda, 
de posse de quanto me levou a pratic- lo: o trono, meus anelos e a rainha. Perdo alcana quem retm o furto? Nos processos corruptos deste mundo pode a justia 
ser desviada pela mo dourada do crime, e muitas vezes o prmio compra a lei; mas no l em cima, onde no valem manhas; o processo no padece artficios, e at 
mesmo nos dentes e na fronte do delito teremos de depor. Que ainda me resta? Tentar o que o arrependimento pode. Oh! Como  poderoso! Mas que pode fazer com quem 
no sabe arrepender- se? Terrvel situao!  peito mais escuro do que a morte!  alma viscosa, quanto mais te esforas, mais te sentes enleada! Anjos, socorro! 
Dobra- te, joelho altivo! Corao de ao, fica to brando quanto os msculos de um recm- nato. Tudo talvez volte a ser como era. 



(Afasta- se e ajoelha.) (Entra Hamlet.) HAMLET:  propcia a ocasio; acha- se orando. Vou faz- lo. Desta arte, alcana o cu... E assim me vingaria? Em outros 
termos: mata um biltre a meu pai; e eu, seu filho nico, despacho esse mesmssimo velhaco para o cu.  soldo e recompensa, no vingana. Assassinou meu pai, quando 
este estava pesado 



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de alimentos, com seus crimes floridos como maio. O cu somente saber qual o estado de suas contas; mas, de acordo com nossas presunes, no ser bom. Direi que 
estou vingado, se o matar quando tem a alma expungida e apta para fazer a grande viagem? No. Aguarda, espada, um golpe mais terrvel, no sono da embriaguez, ou 
em plena clera, nos prazeres do tlamo incestuoso, no jogo, ao blasfemar, ou em qualquer ato que o arraste  perdio. Nessa hora, ataca- o; que para o cu vire 
ele os calcanhares, quando a alma estiver negra como o inferno, que  o seu destino. Espera- me a rainha; prolonga- te a doena esta mezinha. 



(Sai.) (O Rei se levanta e adianta- se.) O REI: O som se evola; o pensamento cansa; um sem o outro jamais o cu alcana. (Sai.) Cena IV Aposento da Rainha. (Entram 
a Rainha e Polnio.) P0LNI0: Ele a vem; repreendei- o asperamente; mostrai que se excedeu nas brincadeiras, e como se interps Vossa Grandeza entre ele e a grande 
clera. Mais nada; somente vos reitero: sede rspida. 



HAMLET: (dentro): Me! Me! A RAINHA: Podeis ficar tranqilo; retirai- vos; est ele chegando. (Polnio se esconde atrs do reposteiro.) (Entra Hamlet.) 



HAMLET: Ento, me, que h de novo? A RAINHA: Grande ofensa a teu pai fizeste, Hamlet. HAMLET: Grande ofensa a meu pai fizeste, me. A RAINHA: Devagar; respondeis 
com lngua ociosa. HAMLET: Vamos, que me falais com lngua ociosa. A RAINHA: Que  isso, Hamlet? HAMLET: Que h de novo agora? A RAINHA Esquecestes quem sou? HAMLET: 
No, pela Cruz! No me esqueci. Sei bem que sois a rainha, casada com o irmo de vosso esposo e - prouvera o contrrio - minha me. 



A RAINHA Vou chamar quem convosco falar possa. 



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HAMLET: Vamos, sentai- vos; no saireis enquanto no vos apresentar eu um espelho que o recndito da alma vos reflita. 



A RAINHA Que pretendes fazer? No vais matar- me? Socorro! Socorro! P0LNI0 (atrs): Que  que h? Socorro! Socorro! HAMLET: (desembainhando a espada): Que  isso? 
Um rato? (Dando uma estocada no reposteiro.) Aposto que o matei. 



P0LNI0: (atrs): Estou morto! A RAINHA: Santo Deus, que fizeste! HAMLET: Ignoro- o. No era o rei? A RAINHA: Que ao precipitada e sanguinria! HAMLET: Aao precipitada 
e sanguinria? To ruim, boa me, quanto matar um rei e desposar o irmo do morto. A RAINHA: Matar um rei? HAMLET: Um rei; foi o que eu disse. 



(Levanta o reposteiro e descobre o corpo de Polnio.) Adeus, bobo apressado e intrometido. Julguei que era o teu chefe;  o teu destino. Vs que o ser servial traz 
seus perigos. No torais tanto as mos; sentai- vos; quero lutar com vosso corao; no caso de ser ele amolgvel, se o maldito costume o no deixou duro como o 
ao, 



A RAINHA: Que fiz eu para usares de linguagem to grosseira? HAMLET: Uma ao que mancha a graa e o rubor da modstia, que a virtude transforma em falsidade, muda 
as rosas da fronte prazenteira do amor puro em chaga repugnante, e os juramentos dos cnjuges em pragas de viciados. Uma ao que do corpo dos contratos tira a prpria 
alma e muda em palavrrio a doce religio; a prpria face do cu cora de pejo; sim, o mundo compacto, nas feies mostra a tristeza do juzo final, diante desse 
ato. 



A RAINHA: Ai! que ao to monstruosa, que troveja estrondeando, com o simples enunciado? HAMLET: Mirai este retrato e mais este outro, que dois irmos fielmente 
representam; vede a graa que encima esta cabea, cachos de Apolo, a fronte alta de Jpiter, o olhar de Marte, ao mando e  ameaa afeito, o porte de Mercrio, o 
mensageiro, quando pousa nos cumes altanados; uma forma, em resumo, perfeitssima, em que os deuses seus selos imprimiram para que o mundo visse o que era um homem: 
esse, foi vosso esposo. Agora o resto: eis vosso esposo, espiga definhada que o irmo sadio empesta. Tendes olhos? Deixastes a pastagem deste belo monte por um pau? 
Ah! tendes olhos? No chameis a isso amor, que em vossa idade o sangue se arrefece, fica humilde e obedece  razo. E que razo passa deste para este? Sois sensvel, 
pois vos moveis; mas tendes os sentidos paralisados. A loucura acerta; 



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nunca os sentidos ficam subjugados pela paixo, a ponto de falharem totalmente na escolha. Que demnio vos logrou de uma vez na cabra- cega? O olho sem tato, o tato 
sem viso, o ouvido s por si, o olfato apenas, a menor parte, em suma, de um sentido verdadeiro, jamais se estontearia desse feitio. Pudor, por que no coras? Se 
nos ossos de uma matrona, inferno, te rebelas, que a continncia fique, para os moos ardentes, como a cera, que amolece no prprio fogo; nem de mancha fales, quando 
no ataque se atirar o instinto, uma vez que  to quente a prpria geada e a razo  alcoveta da vontade. 



A RAINHA: No fales mais, Hamlet; a olhar me foras no mais ntimo da alma, onde acho manchas profundas e to negras, que no perdem jamais a cor. 



HAMLET: Viver num leito infecto que tresanda a fartum, onde fervilha a podrido, juntando- se em carcias num chiqueiro asqueroso! 



A RAINHA: Oh! No prossigas! Apunhalam- me o ouvido essas palavras. Basta, querido Hamlet! 



HAMLET: Um assassino, um vil escravo, que no  um vigsimo do outro marido, um rei- bufo, um simples gatuno do governo desta terra, que a coroa empalmou da prateleira 
e a ps no bolso. 



A RAINHA: Basta! HAMLET: Um rei- palhao, em trajes de mendigo... (Entra o Fantasma.) Estendei sobre mim, legies celestes as asas protetoras! Que deseja vossa imagem 
graciosa A RAINHA: Ai de mim! Est louco. 



HAMLET: No viestes censurar o filho tardo, que deixa a ira assentar, e to remisso se mostra no cumprir vossos preceitos? Oh, dizei! 



O FANTASMA: No te esqueas: minha vinda s visa a estimular- te o intento rombo. Mas v que em tua me se assenta o espanto. 



Corre a interpor- te entre ela e a sua alma em luta, que nas pessoas fracas  terrvel o estrago da iluso. Fala- lhe, Hamlet. 



HAMLET: Senhora, que sentis? A RAINHA: Que se passa contigo, que os olhos assim pousas no vazio e com o ar incorpreo deblateras? Como se te ilumina a alma nos olhos! 
E tais como soldados, quando o alarma vem tir- los do sono, teus cabelos, parecendo com vida, se desmancham, se curiam na tua fronte.  meu bom filho! 



Lana a fria pacincia sobre as chamas e o fogo do teu mal. Mas, para onde olhas? HAMLET: Para ele, sim; quo plido nos fixa! Seu destino e sua forma, se influissem 
nas pedras, racionais as tornariam. Tirai de mim os olhos, para que esse gesto piedoso no transmude minhas speras intenes, pois o que tenho para fazer exige 
cores vivas. Necessito de sangue em vez de lgrimas. A RAINHA: Para quem falas isso? 



HAMLET: Ningum vedes? 



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A RAINHA: Ningum; no entanto vejo o que nos cerca. HAMLET: E nada ouviste? A RAINHA: Nada; a ns somente. HAMLET: Vede ali! Vede! J se afasta... Meu pai, tal como 
em vida se vestia. Acaba - vede- o! - de transpor a porta. 



(Sai o Fantasma.) A RAINHA: Isso  fruto, somente, de teu crebro.  sempre muito frtil o delrio no inventar essas coisas. 



HAMLET: Delrio! Meu pulso, como o vosso,  compassado; toca msica s. No foi loucura quanto falei; ponde- me  prova: posso dizer tudo de novo. Um desvairado 
divagaria. Me, por vossa graa, no lisonjeeis vossa alma, acreditando que ouvis um louco e no vosso delito. A lcera externa, assim, se fecharia, enquanto a corrupo 
minara tudo por dentro, sem ser vista. Ao cu volvei- vos; mostrai- vos do passado arrependida; evitai o futuro, sem que o joio adubeis e lhe deis, assim, mais vio. 
Perdoai- me esta virtude, que nesta poca bem cevada e de flego cortado necessita a virtude rebaixar- se ao prprio vcio e apresentar- lhe escusas por tudo o que 
de bem possa fazer- lhe. 



RAINHA Hamlet, o corao em dois me partes. HAMLET: Jogai fora a metade que no presta, para com a outra parte serdes pura. Boa noite. Mas evitai a cama do meu tio; 
fazei- vos de virtuosa, se o no fordes. O hbito, esse demnio que devora todos os sentimentos, nisso  um anjo, pois para o uso de aes boas e belas empresta 
vestimenta ou capa externa que lhes vo bem. Abstende- vos por hoje, que isso h de conferir facilidade  prxima abstinncia; a outra, mais fcil vos h de parecer, 
que o uso consegue quase modificar a natureza, dominar o demnio e at expeli- lo com poder prodigioso. Uma vez mais, boa noite. Hei de pedir a vossa bno, quando 
dela tambm necessitardes. Enquanto a este homem, faz- me pena; qui- lo desta arte o cu: punir a mim por ele, e a ele por mim. Fui servo, a um tempo, e aoite. 
Vou cuidar dele; fico responsvel por esta morte. E ainda uma vez: boa noite. Preciso ser cruel para ser bom; o ruim comea; o pior j se acha feito. Uma palavra 
mais, senhora. 



A RAINHA: Que  preciso que eu faa? HAMLET: Nada do que vos disse neste instante. Que outra vez para o leito o rei balofo, vos conduza e no rosto vos belisque vos 
chame de ratinha, e que dois beijos infectos e carcias com as mos grossas em vossas costas pronto vos induzam a revelar- lhe que estou bom do juzo, mas que finjo 
loucura. Dizei- lhe isso. Que rainha sensata, bela e honesta esconderia coisas to preciosas de um sapo, de um morcego?  concebvel? Apesar do bom senso, abri a 
gaiola no telhado e deixai fugir o pssaro; depois, como o macaco conhecido, entrai nela e fazei logo a experincia para em baixo partirdes o pescoo. 



A RAINHA: Fica tranqilo; se o falar consiste em respirar, e o flego for vida, no terei vida alguma que respire quanto me revelaste. 



HAMLET: Parto para a Inglaterra; j o sabeis? 



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A RAINHA: Ai! que o esquecera... Assim ficou assentado. HAMLET: Selaram cartas; meus dois companheiros de escola, em quem me fio como em dentes de vbora, se encontram 
com a incumbncia de aplanar- me o caminho e conduzir- me direto ao cativeiro. Pois trabalhem! H de ser engraado ver a bomba fazer saltar o autor. Por mais dificil 
que seja, hei de cavar mais fundo ainda, para jog- los no alto. Como  belo ver a astcia vencer a prpria astcia! Este homem me ajudou a fazer as malas; vou pr 
no quarto anexo esta barriga. Boa noite, me. Realmente, o conselheiro que era to falador, est sisudo: quietinho, bem discreto, grave e mudo. Vamos, senhor, dar 
fim a este negcio. Boa noite, me. 



(Saem por lados diferentes, arrastando Hamlet o corpo de Polnio.) ATO IV Cena I Um quarto no castelo. Entram o Rei, a Rainha, Rosencrantz e Guildenstern. O REI: 
Devem ter uma causa esses suspiros. Conta- ma; desejamos conhec- la. Onde se acha teu filho? A RAINHA: (A Rosencrantz e Guildenstern): Deixai- nos ficar ss por 
um momento. (Saem Rosencrantz e Guildenstern.) Caro esposo, que coisa eu vi esta noite! O REI: Que foi, Gertrudes? Como achaste Hamlet? A RAINHA: To louco quanto 
o mar e o vento, quando lutam pelo primado. Em seu desvairo, vendo atrs da cortina algo mexer- se, saca da espada e grita: um rato! um rato! para matar no acume 
do delrio o bom velho que estava ali escondido. 



O REI: Que triste coisa! O mesmo nos tocara, se estivssemos l. Sua liberdade implica para todos grande ameaa, para ti, para ns, para qualquer. Como explicar 
esse ato sanguinrio? Ho de culpar- nos, por no termos tido a idia de prender o desvairado moo, para evitar possveis males. Mas nosso amor no permitiu sabermos 
o que quisesse ocultar um mal imundo, s fizemos deixar que nos corroesse a medula vital. Aonde foi ele? 



A RAINHA: Foi sepultar o corpo de Polnio, de quem tirou a vida. E nisso a insnia, como gro de ouro em meio  ganga impura, se manifesta estreme: chora a morte 
que ele mesmo causou. 



O REI:  Gertrudes! saiamos! O sol no beijar de novo os montes, sem que a Hamlet embarquemos. No que toca a esta ao vil, teremos de aceit- la, justificando- 
a  custa de artifcios e de nossa grandeza.  Guildenstern! 



(Voltam Rosencrantz e Guildenstern.) 



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Amigos, procurai quem vos ajude. Hamlet a delirar matou Polnio, tendo o corpo tirado do aposento da rainha. Falai- lhe com bem jeito, e ponde na capela o pobre 
morto. Muita pressa, vos peo, nisso tudo. 



(Saem Rosencrantz e Guildenstern.) Convoquemos, Gertrudes, os amigos, para participar- lhes nosso intento e o ato precipitado.  bem possvel que desta arte a calnia, 
que sussurra to certeira de um plo at outro plo, quanto a bala que no alvo o canho joga, nos poupe o nome e aoite apenas o ar, sem mais prejuzo. Vamo- nos; 
minha alma, em discrdia e terror, no se acha calma. 



(Saem.) Cena II Outro quarto no castelo. Entra Hamlet . HAMLET: Est em lugar seguro. ROSENCRANTZ E GUILDENSTERN: Hamlet! Lorde Hamlet! HAMLET: Que barulho  esse? 
Quem chama por Hamlet? Oh! Ei- los que chegam. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.) ROSENCRANTZ: Onde o corpo pusestes, lorde Hamlet? HAMLET: Associei- o ao p, 
de que  parente. ROSENCRANTZ: Dizei- nos onde est, porque possamos dep- lo na capela. HAMLET: No deis crdito a semelhante coisa. 



ROSENCRANTZ: A qu, meu prncipe ? HAMLET: Que eu possa guardar o vosso segredo e no o meu. Alm do mais, ser interrogado por uma esponja! Que poder responder- 
lhe um filho de rei? 



ROSENCRANTZ: Tomais- me por uma esponja, prncipe? HAMLET: Sim, senhor, que chupa os favores, as recompensas e a autoridade reais. Alis, semelhantes cortesos prestam 
timo servio ao rei, que procede com eles como o macaco, conservando- os por algum tempo no canto da boca, antes de engoli- los. Quando tem necessidade do que acumulastes, 
basta espremer- vos, para que, esponjas, fiqueis novamente enxutos. 



ROSENCRANTZ: No compreendo o que dizeis, senhor. HAMLET: O que muito me alegra. As sutilezas dormem no ouvido dos parvos. ROSENCRANTZ: Prncipe, dizei- nos onde 
est o corpo e acompanhai- nos  presena do rei. HAMLET: O corpo est com o rei, mas o rei no est com o corpo. O rei  uma coisa... GUILDENSTERN: Uma coisa, prncipe? 



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HAMLET: ... de nada. Levai- me  sua presena. Esconde- te, raposa! Um atrs do outro! (Saem.) Cena III Outro quarto no castelo. Entram o Rei e criados. O REI: Mandei 
cham- lo e procurar o corpo. Que perigo deixar a esse homem solto! Contudo, - me impossvel ser severo, porque ele  amado pela turba nscia que escolhe to- somente 
pela vista. Importa, nessas condies, apenas pensar na represso, jamais na culpa. Para evitar desgostos,  preciso que esta viagem parea ser produto de reflexo 
madura. Para males desesperados, s remdio enrgico, ou nenhum. 



(Entra Rosencrantz.) Como ento, que aconteceu? ROSENCRANTZ: No conseguimos que ele nos dissesse o lugar onde o corpo est enterrado. O REI: E ele, onde se acha? 
ROSENCRANTZ: A fora, majestade, bem guardado, esperando vossas ordens. O REI: Pois a nossa presena o conduzi. ROSENCRANTZ:  Guildenstern! Traze lorde Hamlet! 
(Entram Hamlet e Guildenstern.) O REI: Ento, Hamlet, onde est Polnio? HAMLET: Est ceando. O REI: Ceando! Onde? HAMLET: No onde ele come, mas onde  comido. 
Certa assemblia de vermes polticos se ocupa justamente dele. Um verme desse gnero  o verdadeiro imperador da dieta. Engordamos as criaturas, para que nos engordem, 
e engordamo- nos para dar de comer aos gusanos. Um rei gordo e um mendigo magro so iguanas diferentes; dois pratos, mas para a mesma mesa: eis tudo. 



O REI: Oh Deus! HAMLET: Pode- se pescar com um verme que haja comido de um rei, e comer o peixe que se alimentou desse verme. 



O REI: Que queres dizer com isso? HAMLET: Nada; apenas mostrar- vos como um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um 



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mendigo. O REI: Onde est Polnio? HAMLET: No cu; mandai procur- lo l, e, se o mensageiro no o encontrar, procurai vs mesmo em outra parte. Mas, se dentro de 
um ms ainda no o tiverdes achado, havereis de descobri- lo pelo olfato, quando subirdes a escada da galeria. 



O REI (a alguns criados): Procurem- no nesse lugar. HAMLET: Ele espera at que chegueis. (Saem os criados.) O REI: Hamlet, para tua segurana, que to cara nos  
quo doloroso o ato que praticaste,  necessrio que te ausentes daqui. Vai preparar- te. O navio est pronto, o vento a jeito,  espera os companheiros... tudo 
para a Inglaterra. 



HAMLET: Inglaterra? O REI: Sim, Hamlet. HAMLET: Bem. O REI: Bem, de fato, dirias, se soubesses dos nossos planos todos. HAMLET: Vejo um querubim que os v... Partamos, 
pois! Para a Inglaterra! Adeus, querida me. O REI: E teu pai afetuoso, Hamlet? HAMLET: Minha me. Pai e me so marido e mulher; marido e mulher, uma e a mesma 
carne. Logo, minha me. Vamos, para a Inglaterra! 



(Sai.) O REI: Levai- o para bordo sem detena.  mister que esta noite esteja longe. Ide; quanto respeita a este negcio j est selado e pronto. Ide depressa. 



(Saem Rosencrantz e Guildenstern.) Se prezas, Inglaterra, nossa aliana - visto teres sentido minha fora, que as cicatrizes ainda se acham frescas dos golpes infligidos 
pela espada dinamarquesa e preito voluntrio nos renderes - no deves demorar- te no cumprir nossas ordens soberanas exaradas nas cartas e que exigem que Hamlet 
morra. Isso, Inglaterra, faze, que ele o sangue me queima tal qual a htica. Urge livrar- me deste mal. Realmente, ele vivo, no posso estar contente. 



(Sai.) Cena IV Uma plancie na Dinamarca. 



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Entram Fortimbrs, um capito e soldados, em marcha. FORTIMBR8~ Saudai de minha parte a Dinamarca, acrescentando que com sua licena Fortimbrs pede franco e livre 
trnsito por seu reino. Sabeis onde devemos encontrar- nos. Se Sua Majestade quiser falar- nos algo, em sua presena presto estaremos. Dai- lhe esse recado. 



O CAPITO: Assim farei, senhor. FORTIMBRS: Em frente, devagar. (Fortimbras e os soldados saem) (Entram Hamlet, Rosencrantz, Guildenstern e outros.) HAMLET: Amigo, 
de quem so esses soldados? O CAPITO: Da Noruega Senhor. HAMLET: Por obsquio, qual  o seu destino? O CAPITO: Combater uma parte da Polnia. HAMLET: Quem  o 
comandante? O CAPITO: Fortimbrs, o sobrinho de Noruega. HAMLET: Visam toda a Polnia, ou porventura um ponto da fronteira? O CAPITO: Para falar verdade, sem acrscimo, 
vamos lutar por uma nesgazinha que outro lucro no deixa alm da glria. Cinco ducados, cinco, eu no daria para arrend- la, nem mais obteriam a Noruega e a Polnia, 
se a vendessem. 



HAMLET: Nesse caso, o Polaco a no defende. O CAPITO: Como no? J se encontra guarnecida. HAMLET: Duas mil almas, vinte ducados no perfazem o preo dessa palha; 
 o apostema da paz e da riqueza, que rompe para dentro, sem que nada por fora a morte inculque. Muito grato. 



O CAPITO: Que Deus vos acompanhe. (Sai.) ROSENCRANTZ: Continuamos o caminho? HAMLET: Segui, j vos alcano. (Saem todos, com exceo de Hamlet.) Como tudo me acusa, 
espicaando- me  vingana! Que  o homem, se sua mxima ocupao e o bem maior no passam de comer e dormir? Um simples bruto. Decerto, quem nos criou com a faculdade 
que ao passado e ao futuro nos transporta, no nos deu a razo divina, para que fique intil. Seja esquecimento bestial, ou mesmo escrpulo covarde que me leva a 
pensar demais nas coisas - pensamento com um quarto de bom senso e trs de covardia - ignoro a causa de ficar a dizer: "Devo faz- lo", se para tal me sobram meios, 
fora, causa e disposio. Exemplos grandes como a terra me exortam: este 



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exrcito de tal poder e nmero, chefiado por um prncipe moo e delicado, cuja coragem a ambio divina faz exaltar, levando- o a defrontar- se com os fatos invisveis 
e a sua parte mortal e pouco firme a pr em risco contra o que ousa a fortuna, o acaso e a morte, por uma casca de ovo. O ser, de fato, grande no  empenhar- se 
em grandes causas; grande  quem luta at por uma palha, quando a honra est em jogo. E eu, deste modo, com o pai assassinado, a me poluida - razes de estimular 
o sangue e o brio nada me esperta? Vejo, envergonhado, vinte mil homens prximos da morte, que por simples capricho da vaidade caminham para o tmulo tal como se 
fossem para o leito, e lutam pela conquista de um terreno em que no cabem, e que como sepulcro ainda  pequeno para esconder sequer os que a tombarem. Doravante 
terei s pensamentos de sangue ou sem valor, soltos aos ventos. 



(Sai.) Cena V Elsinor. Um quarto no castelo. Entram a Rainha, Horcio e um nobre. A RAINHA No quero falar a ela. O NOBRE: De fato, ela  importuna no desvario. 
Compungem os seus modos. A RAINHA: Que a preocupa? O NOBRE: Fala muito no pai; diz ter sabido que o mundo  mau, bate no peito, e geme, zangando- se por nada. Diz 
palavras dbias e sem sentido: nada, em suma, conquanto esse seu modo leve o ouvinte a tirar concluses, interpretando- lhe as palavras ao jeito do que pensam, concluindo 
de seus gestos, da maneira de piscar, dos meneios da cabea, que algo querem dizer. Ainda que sejam suposies, tudo desgraa inculca. 



A RAINHA: Seria bom falar- lhe, que ela pode suscitar conjeturas dos maldosos. Fazei- a entrar. (Sai O nobre.) Para a alma criminosa e feperjura, tudo anuncia alguma 
desventura. Tanto se agita o crime, em tal enredo, que a si mesmo se trai, de puro medo. 



(Volta o nobre, com Oflia.) OFLIA: Onde se encontra a bela Majestade da Dinamarca? A RAINHA: Que h de novo, Oflia? OFLIA: (canta): Como reconhecer em meio  
turba o jovem meu amado? Pelo chapu de conchas, as sandlias, e mais pelo cajado. 



A RAINHA: Minha doce menina, a que vem isso? OFLIA: Que dizeis? Escutais, vos peo, agora: (Canta.) Senhora, ele se foi; no mais existe; morreu; nada mais ousa. 
 cabea lhe nasce um tufo de erva; sobre o corpo uma lousa. Oh! Oh! A RAINHA: Querida Oflia, escuta... 



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OFLIA: Por favor, escutai: (Canta.) Como um monte de neve era a mortalha (Entra o Rei.) enfeitada de flor; orvalhada baixou para o sepulcro, pelo pranto do amor. 



O REI: Como vai passando, gentil menina? OFLIA Bem, graas a Deus. Dizem que a coruja era filha de um padeiro. Sabemos, senhor, o que somos, mas no o que viremos 
a ser. Deus assista na vossa mesa. 



O REI: Aluso ao pai. OFLIA: Por favor, no falemos mais disso; mas se vos perguntarem o que significa, dizei- lhes: (Canta.) Raiou o dia de So Valentim; de p 
todos esto. Para ser vossa Valentina, irei pr- me  janela, ento. Ela se ala depressa, a roupa veste e a porta lhe franqueou, fazendo entrar a virgem, que, assim, 
virgem, no mais ali passou. 



O REI: Meiga Oflia... OFLIA Realmente, vou concluir sem nenhum juramento: (Canta.) Pela Virgem e a Santa Caridade, que vergonha, meu Deus! Os moos o faro, se 
a se encontrarem... Vergonha para os seus. F- lo- ia, respondeu, caso ao meu leito no quisesses entrar. 



O REI: H quanto tempo est ela assim? OFLIA: Espero que tudo corra bem. Precisamos de pacincia, conquanto no possa deixar de chorar, ao pensamento de que vo 
dep- lo no cho frio. Meu irmo h de ficar sabendo disso. Muito obrigada pelo conselho amigo. Que venha o meu carro. Boa noite, senhoras! Boa noite, encantadoras 
senhoras! Boa noite! Boa noite! 



(Sai.) O REI: Ide- lhe em ps; vigiai- a com cuidado. (Sai Horcio.) Dor profunda a envenena; provm tudo do traspasso do pai. Cara Gertrudes, as tristezas no andam 
como espias, mas sempre em batalhes. Primeiro, a morte do pai; depois, a ausncia de teu filho, causador de seu prprio banimento; o povo alvoroado, crasso e impuro, 
conjetura em cochichos sobre a morte do 



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bom Polnio; foi inexperincia sepult- lo s ocultas; ora, Oflia, solitria de si e do prprio juzo, sem o qual somos brutos ou pinturas... Por ltimo, o que 
vale mais que tudo, seu irmo que voltou secretamente, anda cheio de pasmo, vai s nuvens, sem que os murmuradores lhe faleam com ditos pestilentos sobre a causa 
da morte do pai dele, sem falarmos que a prpria confuso, no conhecendo como as coisas realmente se passaram, no deixar de envenenar- me o nome de ouvido para 
ouvido.  minha cara Gertrudes, isso tudo, como pea mortfera disposta em vrias partes, morte sobeja ora vai dar- me. 



(Ouve- se barulho.) A RAINHA: Que houve? (Entra um nobre.) O REI: Onde esto meus suos? Que defendam as portas. Que h de novo? O NOBRE: Majestade, fugi! O oceano, 
quando rompe os diques, no devora a plancie com mais mpeto do que Laertes,  testa dos rebeldes, vence a tropa legal. O populacho lhe chama lorde, e tal como 
se o mundo fosse recomear, sem que mais lembrem tradies, esquecidos os costumes - sustentculos firmes das palavras - grita: Elejamos rei! Seja Laertes! As lnguas 
e os chapus, as mos o aplaudem at s nuvens: Laertes, nosso rei! 



A RAINHA: Como ladram joviais na pista falsa! Errastes, falsos ces dinamarqueses! O REI: Arrombaram as portas. (Ouve- se barulho.) (Entra Laertes, armado, seguido 
de dinamarqueses.) LAERTES: Onde est o rei? Senhores, ficai fora! DINAMARQUESES: No; entremos. LAERTES: Suplico- vos, deixai- nos! DINAMARQUESES: Pois no! Pois 
no! (Afastam- se para trs da porta.) LAERTES: Obrigado; guardai todas as portas. Rei desprezvel, dai- me o meu bom pai. O REI: Calma, meu bom Laertes. LAERTES: 
A gota de meu sangue que ficasse calma, me insultaria de bastardo, mancharia meu pai, lanando a pecha de meretriz na fronte imaculada de minha santa me. 



O REI: Qual  o motivo, Laertes, de assumir ares gigantes essa rebelio? Deixa- o, Gertrudes; nada temas por ns. De tal maneira o carter divino ao rei protege, 
que a traio mal espreita o que almejara, sem nada conseguir... Dizei, Laertes, o que vos ps assim. Gertrudes, deixa- o. Falai, jovem. 



LAERTES: Meu pai, que  dele? 



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O REI: Morto. A RAINHA: Mas no por ele. O REI: Deixa que me fale. LAERTES: Como morreu? No quero ser ludbrio de ningum. Para o inferno os juramentos! Fidelidade, 
os diabos a carreguem! Conscincia e graa, o abismo as sorva logo! Venha a condenao! Chego at ao ponto de arriscar esta vida e a porvindoira, sem medir conseqncias, 
to- somente para a meu pai vingar. 



O REI: Que vos detm? LAERTES: Afora o meu querer, nem todo o mundo. Quanto aos recursos, hei de encontrar jeito de obter muito com pouco. 



O REI: Ouvi, Laertes; se desejais, de fato, saber como vosso pai faleceu, acha- se escrito nos vossos planos, que deveis num lance, sem distino de amigos e inimigos, 
arrastar os culpados e inocentes? 



LAERTES: No, s seus inimigos. O REI: Desejais conhec- los? LAERTES: A quantos se mostrarem seus amigos, os braos tenho abertos e, como o pelicano, com meu sangue 
lhes darei vida e alento. 



O REI: Essas palavras so de bom filho e bravo gentil- homem. Minha inocncia relativa  morte de vosso pai, e a mgoa de perd- lo ho de ao juzo to claro aparecer- 
vos como aos olhos a luz. 



DINAMARQUESES (dentro): Deixai- a entrar. LAERTES: Que significa esse barulho? (Entra Oflia.) Febre. seca- me o crebro! Corroei- me, lgrimas sete vezes salgadas, 
a virtude dos olhos! Pelo cu! tua loucura ser pesada at que desa o prato da balana. Rosa de maio, irm, doce menina, querida Oflia!  cu!  ento possvel 
que a razo de uma jovem seja frgil como o alento de um velho? A natureza se depura no amor e, florescendo, empresta  coisa amada algo da essncia preciosa de 
si mesma. 



OFLIA (canta): Levaram- no a enterrar sem cobertura... Tra- l, la- r! Quanto choro lhe rega a sepultura! Adeus, pombinho! LAERTES: Se com toda a razo me concitasses 
a vingar- te, nem tanto me abalaras. OFLIA: Devereis cantar: "Abaixo! abaixo! Chamai- o para baixo!" Oh! Como a roda lhe vai bem!  da cano do intendente falso 
que raptou a filha do amo. 



LAERTES: Este nada vale mais do que tudo. 



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OFLIA: Aqui est rosmaninho, para lembrana. No te esqueas de mim, querido. Estes amores- perfeitos so para o pensamento. 



LAERTES: Uma sentena na loucura: a lembrana e o pensamento harmonizados! OFLIA: Para vs, funcho e aquilia; arruda para vs, e um pouco para mim, tambm. Poderemos 
chamar- lhe erva da graa dos domingos, mas a vossa dever ser usada de outro jeito. Aqui est margarida. Quisera dar- vos algumas violetas, mas murcharam todas, 
quando meu pai morreu. Dizem que ele teve um fim muito bonito. 



(Canta.) Era a minha alegria o bom Robim! LAERTES:  tristeza,  paixo, ao prprio inferno, a tudo ela d graa e empresta encanto. OFLIA (canta): Nunca mais o 
veremos? No mais retornar? Sumiu deste mundo; baixai para o fundo, que ele no voltar. Barba branca de neve, de linho a cabeleira. J foi, sem parar;  intil 
chorar; que no cu Deus o queira e a todas as almas crists,  o que eu rogo a Deus. Deus seja convosco! 



(Sai.) LAERTES: Vedes isto,  Deus? O REI: De vossa mgoa, Laertes, compartilho;  meu direito. Agora retirai- vos por uns momentos e os mais ajuizados amigos escolhei, 
porque nos ouam, para entre mim e vs serem juzes. Se achardes culpa em ns, mediata embora, ser vossa a coroa, nosso reino, a prpria vida e tudo quanto  nosso, 
como satisfao. No caso oposto, contentai- vos de ouvir- nos com pacincia, que, a vossa alma associados, cuidaremos de ressarcir- lhe a dor. 



LAERTES: Seja. A maneira por que morreu, o enterro misterioso, sem braso, nem espada sobre o tmulo, a ausncia do ritual e pompas fnebres, clamam, como atroando 
o cu e a terra, pedindo explicaes. 



O REI: Ser- vos- o dadas. E onde houver culpa, caia a machadinha. Vinde comigo, peo- vos. (Saem.) CENA VI Outro quarto no castelo. Entram Horcio e um criado. 
HORCIO: Quem quer falar comigo? O CRIADO: Marinheiros, senhor; so portadores de umas cartas. 



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H0RCIO: Que entrem, pois. (Sai o criado.) Tirando lorde Hamlet, em todo o mundo no sei quem poderia enviar- me cartas. (Entra um marinheiro.) MARINHEIRO: Deus 
vos abenoe, senhor. HORCIO: E a ti tambm. MARINHEIRO: Assim o far, senhor, se for de sua vontade. Esta carta, senhor,  para vs; vem da parte do embaixador 
que deveria ir para a Inglaterra, se vos chamardes Horcio, como me afirmaram. 



HORCIO (l): "Horcio, quando passares os olhos por esta, proporciona a esses homens meios de chegarem at ao rei; so portadores de cartas para ele, tambm. No 
havia ainda dois dias que nos encontravmos no mar, quando nos deu caa um corsrio de grande aparelhagem blica. A morosidade das velas nos tornou valentes  fora, 
havendo eu saltado para a tolda do inimigo logo que o abordamos. No mesmo instante conseguiram desvencilhar- se de nosso navio, ficando eu como nico prisioneiro. 
Procedem comigo como ladres misericordiosos; mas eles sabem o que fazem, pois esperam tirar de mim grande proveito. Faze chegar ao rei as cartas que lhe envio e 
vem ter comigo com a pressa que empregarias em fugir da morte. Tenho a dizer- te ao ouvido palavras que te deixaro mudo, muito embora ainda sejam leves demais para 
o calibre do assunto. Essa boa gente h de informar- te onde me encontro. Rosencrantz e Guildenstern continuam a caminho da Inglaterra. Tenho muito que contar- te 
a respeito deles. Aquele que conheces como te pertencendo, Hamlet." Vinde comigo: vou facilitar- vos a entrega dessas cartas, porque logo me leveis  pessoa que 
as enviou. 



(Saem.) Cena VII Outro quarto no castelo. Entram o Rei e Laertes. O REI: Vossa conscincia, agora, me confirma quitao mais que plena. Podeis mesmo ao peito aconchegar- 
me como amigo, pois j sabeis, de ouvir de cincia certa, que quem matou a vosso nobre pai tambm me quis matar. 



LAERTES:  o que parece. Mas, por que no punistes esses atos, de si to criminosos, como a vossa dignidade o obrigava, a segurana, tudo, em suma? 



O REI: Oh! So duas as razes, que talvez vos paream despiciendas, mas que pesam. Sua me vive somente de seus olhares. Quanto ao que me toca - seja virtude ou 
doena, pouco monta - de alma e corpo me sinto a ela to preso, que assim como no sai da rbita a estrela, sem ela me no mexo. O outro motivo que me impede de 
com ele justar contas  o grande amor que lhe devota a plebe, que, na afeio banhando seus defeitos, como as fontes que o lenho em pedra mudam, de ferros faz relquias. 
Minhas setas, talhadas em madeira muito leve para to forte vento, voltariam para o arco, sem que no alvo se encravassem. 



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LAERTES: E assim perdi meu nobre pai, e vejo cada na demncia minha irm, cujo valor, se  lcito falar- se do que j foi, nenhum outro acharia que pudesse igual- 
lo em perfeio. Mas espero vingar- me. 



O REI: Vosso sono no perturbeis com semelhante idia, nem penseis, porventura, que sejamos composto de matria to grosseira, que deixemos puxar- nos pela barba 
com violncia e ainda achemos que  brinquedo. Breve ouvireis o resto. Era afeioado a vosso pai; amamos a ns mesmos, por isso espero que havereis de, em breve... 



(Entra um mensageiro.) Que h de novo? MENSAGEIRO: Senhor, cartas de Hamlet, para a rainha e Vossa Majestade. O REI: De Hamlet? Quem as trouxe? MENSAGEIRO: Marinheiros, 
senhor, segundo dizem no lhes falei; foi Cludio quem mas deu; a este  que o portador as entrega. 



O REI: Laertes, vais ouvi- las. Podes ir. (Sai o mensageiro.) (L) "Alto e poderoso senhor: sabei que fui trazido nu para vosso reino. Amanh vos pedirei permisso 
para contemplar vossos reais olhos, quando pretendo, depois de obtido consentimento, relatar- vos os motivos de meu inesperado e muito estranho regresso. Hamlet." 



Que  isso? E os companheiros, voltariam? No ser tudo apenas uma farsa? LAERTES: E a letra? O REI: Os traos so de Hamlet: "Nu"; e adiante, em ps- escrito, diz: 
"Sozinho". Podeis aconselhar- me? LAERTES: No sei tambm que faa. Mas que venha. Sinto que se me inflama o peito  idia de viver e poder dizer- lhe aos dentes: 
Assim fizeste! 



O REI: Se assim , Laertes, e por que no? Por que de outra maneira? Quereis que vos oriente? LAERTES: Ento, senhor! Contanto que de paz no seja o assunto. O REI: 
Vossa paz, simplesmente. J que a viagem ficou frustrada e que ele j no cuida de reinici- la, penso em concit- lo a um feito em que de h muito estou pensando, 
que a morte dele implica, sem que vento de censura nenhum nos incomode; a prpria me ver no efeito o acaso, chamando- lhe acidente. 



LAERTES: Estou de acordo e mais ainda estarei, se dispuserdes que seja eu o instrumento. O REI: Vem a tempo. Ds que viajastes, fostes elogiado na presena de Hamlet 
por um dote em que, se diz, primais. Todas as outras qualidades, reunidas, no tiveram o poder de espertar- lhe tanto a inveja, como essa, que, a meu ver,  a mais 
modesta. 



LAERTES: Que talento, senhor, gabaram tanto? O REI: Um lao no chapu da juventude, conquanto necessrio; porque aos moos cai bem a vestimenta leve e simples, como 
peles e mantos  velhice, que a protegem, tornando- a circunspecta. Aqui esteve, h dois meses, um normando. Lutei contra os franceses; sei, de viso, que so bons 
cavaleiros. Esse bravo, 



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contudo, fez milagres, de tal modo se unia  sela, e tais e tantas coisas ao cavalo obrigava. Pareciam um s corpo e que meia natureza do formoso animal ele possusse. 
De tal modo excedeu meu pensamento, que s de imaginar voltas e saltos fico aqum de seus efeitos. 



LAERTES: Um normando? O REI: Normando, sim. LAERTES: Lamord, por minha vida! O REI: Esse mesmo. LAERTES: Conheo- o bem;  a prola e a jia de seu povo. O REI: 
Fez- vos grandes encmios, elogiando- vos de tal maneira na arte e no manejo das armas, sobretudo do florete, que proclamavam digno de ser visto, se algum vos desafiasse. 
Os esgrimistas de sua ptria, jurava, careciam de vista, precauo e agilidade, quando em jogo convosco. Esses encmios envenenaram tanto a alma de Hamlet, que vivia 
a querer que regresssseis porque logo convosco se medisse. Ora, assim sendo... 



LAERTES: Sendo assim, senhor? O REI: Laertes, vosso pai vos era caro, ou sois tal como a imagem da tristeza, rosto sem corao? LAERTES: Por que isso agora? O REI: 
No penso que esse amor vos falecesse; mas sei que o amor no tempo se origina, sobre haver- me a experincia demonstrado que o tempo lhe modera o ardor e o brilho. 
No centro dessa chama se acha sempre uma mecha ou pavio que a amortece. Nada conserva sempre o mesmo aspecto; que at mesmo a bondade, em demasia, morre do prprio 
excesso. O que queremos, deve ser feito, que o querer varia, mostrando tantas quedas e delongas quantas lnguas existem, mos e casos, e o "devia" se muda num suspiro 
que alivia e faz mal. Mas vamos  lcera: Hamlet volta; como demonstrreis que de tal pai sois filho, mais com atos do que simples palavras? 



LAERTES: Cortar- lhe- ia o pescoo na igreja. O REI: De fato, no devia haver santurio que o homicida amparasse, nem limites para a vingana. Mas, bondoso Laertes, 
se concordais, ficai no vosso quarto. Hamlet vai saber que j voltastes; cuidarei que de vs lhe falem muito, pondo duplo verniz nos elogios do francs. Em resumo: 
aproximamo- nos e faremos apostas. Desatento como ele , sobre nobre e sem suspeita, as armas no ver. Da ser fcil, na confuso, ficardes com o florete no protegido, 
o que vos ensejar, num bote calculado, compens- lo por vos ter morto o pai. 



LAERTES: Aceito o alvitre, e ainda mais: enveneno minha espada. Comprei de um charlato certa mistura to mortal que, banhando nela a faca, uma vez feito o sangue, 
no h emplastro, ainda que preparado s de simples virtuosos sob a lua, que consiga dar vida a quem tocado for de leve. Vou pr esse veneno na minha arma, porque 
esflorar o contendor j seja para ele a morte. 



O REI: Vamos tratar disso. Pesemos ora o tempo e as circunstncias adequadas ao caso. Se essa traa falhar, transparecendo nosso intento por falecer- nos jeito, 
melhor fora no ter tentado. Da o ser preciso novo plano, numa espcie de reforo, para o caso de a prova no dar certo. Esperai... Quero ver... 



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Apostaremos por maneira solene na arte de ambos... Eis aqui! Quando a luta vos der calor e sede esforai- vos para isso nos ataques - e ele quiser beber, hei de 
uma taa ter  mo. Bastar que nela molhe de leve os lbios, caso ele consiga livrar- se do florete envenenado, porque o plano d certo. Mas, que  isso? 



(Entra a Rainha.) Ento, meiga rainha? A RAINHA: Tanto as desgraas correm, que se enleiam no encalo umas das outras. Vossa irm afogou- se, Laertes. 



LAERTES: Afogou- se? Onde? Como? A RAINHA: Um salgueiro reflete na ribeira cristalina sua copa acinzentada. Para a foi Oflia sobraando grinaldas esquisitas de 
rainnculas, margaridas, urtigas e de flores de prpura, alongadas, a que os nossos campnios chamam nome bem grosseiro, e as nossas jovens "dedos de defunto". Ao 
tentar pendurar suas coroas nos galhos inclinados, um dos ramos invejosos quebrou, lanando na gua chorosa seus trofus de erva e a ela prpria. Seus vestidos se 
abriram, sustentando- a por algum tempo, qual a uma sereia, enquanto ela cantava antigos trechos, sem revelar conscincia da desgraa, como criatura ali nascida 
e feita para aquele elemento. Muito tempo, porm, no demorou, sem que os vestidos se tornassem pesados de tanta gua e que de seus cantares arrancassem a infeliz 
para a morte lamacenta. 



LAERTES: Afogou- se, dissestes? A RAINHA: Afogou- se. LAERTES: Querida irm, j tens gua de sobra; no te darei mais lgrimas. Contudo, somos assim, que a natureza 
o obriga, sem que importe a vergonha; uma vez fora, deixou de ser mulher. Adeus, senhor. Com as palavras, s chamas me sairiam, se no fosse apag- las a tolice. 



(Sai.) O REI: Sigamo- lo, Gertrudes. Que trabalho me custou para a clera acalmar- lhe! Receio que de novo a explodir venha. Sigamo- lo, portanto. 



(Saem.) ATO V Cena I Um cemitrio. Entram dois coveiros, com alvies e ps. PRIMEIRO C0VEIRO: Poder ser- lhe dada sepultura crist, se foi ela quem procurou a salvao? 
SEGUNDO COVEIRO: Digo- te que sim: por isso, trata de abrir logo a sepultura; o magistrado j fez investigaes, tendo concludo pelo sepultamento em cho sagrado. 



PRIMEIRO COVEIRO: Como assim, se ela no se afogou em defesa prpria? 



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SEGUNDO COVEIRO: Foi o que decidiram. PRIMEIRO COVEIRO: Ento foi se ofendendo; no pode ter sido de outro modo, que o ponto principal  o seguinte: se eu me afogar 
voluntariamente, pratico um ato; um ato  composto de trs partes: agir, fazer e realizar. Logo afogou- se porque quis. 



SEGUNDO COVEIRO: Mas ouvi, compadre coveiro... PRIMEIRO COVEIRO: Com licena. Aqui est a gua; bem. Aqui est o homem; bem. Se o homem vai para a gua e se afoga, 
 ele, quer o queira quer no, que vai at l. Toma nota. Mas se a gua vem para ele e o afoga, no  ele que se afoga. Logo, quem no  culpado de sua prpria morte, 
no encurta a vida. 



SEGUNDO COVEIRO: E isso  lei? PRIMEIRO COVEIRO: , de acordo com as concluses do magistrado. SEGUNDO COVEIRO: Quereis que vos seja franco? Se no se tratasse de 
uma senhorinha de importncia, no lhe dariam sepultura crist. 



PRIMEIRO COVEIRO: Tu o disseste;  pena que neste mundo os grandes tenham mais direito de se enforcarem e afogarem do que os seus irmos em Cristo. D- me a p. 
No h nobreza mais antiga do que a dos jardineiros, dos abridores de fossas e dos coveiros; todos exercem a profisso de Ado. 



SEGUNDO COVEIRO: Ado era nobre? PRIMEIRO COVEIRO: Foi quem primeiro usou armas. SEGUNDO COVEIRO: Como, se no as possua? PRIMEIRO COVEIRO: Qu! s pago? Como 
 que interpretas a Escritura? A Escritura diz que Ado cavou. Como poderia ele cavar, se no possuisse armas? Vou fazer- te outra pergunta; se no responderes certo, 
ters de confessar que s... 



SEGUNDO COVEIRO: Pois que venha a pergunta. PRIMEIRO COVEIRO: Quem  que constri mais solidamente do que o pedreiro, o carpinteiro e o construtor de navios? 



SEGUNDO COVEIRO: O que levanta cadafalsos, porque suas construes sobrevivem a milhares de inquilinos. 



PRIMEIRO COVEIRO: Realmente, aprecio a tua vivacidade. O cadafalso faz bem. Mas, para quem faz ele bem? Para os que fazem mal. Por isso, fizeste mal em dizer que 
o cadafalso  mais slido do que a Igreja. Logo o cadafalso te faria bem. Vamos, responde logo. 



SEGUNDO COVEIRO: Quem  que constri mais solidamente do que o pedreiro, o carpinteiro e o construtor de navios? 



PRIMEIRO COVEIRO: Justamente. Responde isso e sai da canga. SEGUNDO COVEIRO: Desta vez vou acertar. PRIMEIRO COVEIRO: Veremos. 



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SEGUNDO COVEIRO: Com a breca! No o consigo. (Hamlet e Horcio aparecem no fundo.) PRIMEIRO COVEIRO: No ds tratos  bola, que o teu asno preguioso no andar 
mais depressa com as chibatadas. Quando te fizerem de novo essa pergunta, responde que  o coveiro, porque a casa que le constri dura at o dia do Juzo. Corre 
 hospedaria e traze- me uma caneca de aguardente. 



(Sai o segundo coveiro.) PRIMEIRO COVEIRO (canta, continuando a cavar): Quando rapaz amei, amei bastante Quo doce me sabia tudo aquilo! Que tempo! Um s instante 
mais que tudo valia. 



HAMLET: Esse sujeito no ter o sentimento da profisso, para cantar, quando est abrindo uma sepultura? 



HORCIO: O hbito facilitou- lhe a tarefa. HAMLET:  isso; as mos que trabalham pouco so mais sensveis. PRIMEIRO COVEIRO (canta): Mas a idade, com passo de ladro, 
nas garras me apanhou, tirando- me do mundo folgazo; e tudo se acabou. 



(Joga um crnio.) HAMLET: Tempo houve em que aquele crnio teve lngua e podia cantar; agora, esse velhaco o atira ao solo, como se se tratasse da mandbula de Caim, 
o primeiro homicida.  bem possvel que a cabea que esse asno maltrata desse jeito seja de algum poltico que enganava ao prprio Deus, no te parece? 



HORCIO:  bem possvel, milorde. HAMLET: Ou de algum corteso que sabia dizer: "Bom dia, meu doce senhor! Como vai passando, meu bom senhor?" Talvez a de lorde 
Fulano, que elogiava o cavalo de lorde Cicrano, quando tinha a inteno de pedir- lho, no  verdade? 



HORCIO:  isso mesmo. HAMLET: E agora, depois de pertencer a lorde Verme, que lhe comeu as carnes, este sujeito lhe bate com a enxada no maxilar. Se pudssemos 
acompanh- lo em todas as fases, surpreenderamos nisso uma bela revoluo. Levarem tanto tempo esses ossos para se formarem, s para virem a servir de bola! S 
de pensar em tal coisa, sinto doer os meus. 



PRIMEIRO COVEIRO (canta) Uma enxada e uma p bem resistente, 



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mais um lenol bem- feito e uma cova de lama indiferente, fazem do hspede o leito. 



(Joga outro crnio.) HAMLET: Mais um crnio. Por que no h de ser o de um jurista? Onde foram parar as sutilezas, os equvocos, os casos, as enfiteuses, todas as 
suas chicanas? Por que consente que este maroto rstico lhe bata com a enxada suja, e no lhe arma um processo por leses pessoais? Hum!  bem possvel que esse 
sujeito tivesse sido um grande comprador de terras, com suas escrituras, hipotecas, multas, endossos e recuperaes. Consistir a multa das multas e a recuperao 
das recuperaes em ficarmos com a bela cabea assim cheia de to bonito lodo? No lhe arranjaram seus fiadores, com as fianas duplas, mais espao do que o de seus 
contratos? Os ttulos de suas propriedades no caberiam em seu caixo; no obtero os herdeiros mais do que isso? 



HORCIO Nada mais, milorde. HAMLET: Pergaminho no  feito de pele de carneiro? HORCIO: Perfeitamente, prncipe; e tambm de bezerro. HAMLET: No passam de carneiros 
e de bezerros os que procuram segurar- se nisso. Vou dirigir- me a esse maroto. De quem  essa cova, camarada? 



PRIMEIRO COVEIRO:  minha, senhor. e uma cova de lama indiferente fazem do hspede o leito. HAMLET: Estou vendo que  tua, de fato, porque te encontras dentro dela. 
PRIMEIRO COVEIRO: Estais fora dela, senhor; logo, no vos pertence. Enquanto a mim, muito embora no esteja deitado nela, posso dizer que  minha. 



HAMLET: No  certo dizeres que te pertence porque ests dentro dela. Sepultura  para os mortos, no para os que esto com vida. Logo, ests mentindo. 



PRIMEIRO COVEIRO: Uma mentira viva, senhor, que voltar de mim para vs. HAMLET: Para que homem ests cavando essa sepultura? PRIMEIRO COVEIRO: No  para nenhum 
homem, senhor. HAMLET: Para que mulher, ento? PRIMEIRO COVEIRO: No  para mulher, tampouco. HAMLET: Quem  que vai ser enterrado nela? PRIMEIRO COVEIRO: Algum 
que foi mulher, senhor, e que - Deus a tenha em sua santa guarda - j faleceu. 



HAMLET: Como esse sujeito  meticuloso! Precisamos falar- lhe com a bssola na mo; qualquer equivoco poder ser- nos fatal. Por Deus, Horcio, tenho observado que 
nestes trs ltimos anos o mundo se torna cada vez mais sutil. O p do campnio toca to de perto no calcanhar do nobre, que causa 



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esfoladuras. H quanto tempo s coveiro? PRIMEIRO COVEIRO: Entre todos os dias do ano, iniciei a profisso no dia em que o nosso defunto Rei Hamlet venceu a Fortimbrs. 



HAMLET: E quanto tempo faz isso? PRIMEIRO COVEIRO: No sabeis? Qualquer bobo poderia dizer- vos: foi no dia em que nasceu o moo Hamlet, aquele que ficou louco e 
que mandaram para a Inglaterra. 



HAMLET: Ah, sim? E por que o mandaram para a Inglaterra? PRIMEIRO COVEIRO: Ora, porque enloqueceu. L, ele h de recuperar o juzo; mas se o no fizer, importa pouco. 



HAMLET: Por que razo? PRIMEIRO COVEIRO:  que ningum se aperceber disso; todos por l so to loucos quanto ele. HAMLET: E como foi que ele enloqueceu? PRIMEIRO 
COVEIRO: Por maneira multo estranha, dizem. HAMLET: Como estranha? PRIMEIRO COVEIRO: Ora, perdendo o juzo. HAMLET: E onde foi isso? PRIMEIRO COVEIRO: Ora, aqui 
na Dinamarca. Entre rapaz e homem feito, sou coveiro h trinta anos. HAMLET: Quanto tempo pode uma pessoa ficar na terra, sem apodrecer? PRIMEIRO COVEIRO: A la f, 
se j no comeara a apodrecer em vida, que hoje em dia h muitos bexiguentos que mal esperam pela inumao, poder durar- vos coisa de oito anos ou nove; um curtidor 
demora nove anos. 



HAMLET: E por que ele mais tempo do que os outros? PRIMEIRO COVEIRO: Ora, senhor,  que a profisso lhe endurece a pele, tornando- a impermevel  gua, que  o 
mais ativo destruidor do bandido do cadver. Temos aqui outro crnio, que vos ficou na terra seus vinte e trs anos. 



HAMLET: De quem era este? PRIMEIRO COVEIRO: Do mais extravagante louco que j se viu. Quem pensais que ele fosse? HAMLET: No posso sab- lo. PRIMEIRO COVEIRO: Para 
o diabo com sua loucura! Certa vez atirou- me  cabea uma botija de vinho do Reno. Esse crnio a, senhor, esse crnio ai, senhor, era o crnio de Yorick, o bobo 
do rei. 



HAMLET: Este? 



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PRIMEIRO COVEIRO: Precisamente. HAMLET: Deixa- me v- lo. (Toma o crnio.) Pobre Yorick! Conheci- o, Horcio; um sujeito de chistes inesgotveis e de uma fantasia 
soberba. Carregou- me muitas vezes s costas. E agora, como me atemoriza a imaginao! Sinto engulhos. Era aqui que se encontravam os lbios que eu beijei no sei 
quantas vezes. Onde esto agora os chistes, as cabriolas, as canes, os rasgos de alegria que faziam explodir a mesa em gargalhadas? No sobrou uma ao menos, para 
rir de tua prpria careta? Tudo descarnado! Vai agora aos aposentos da senhora e dize- lhe que embora se retoque com uma camada de um dedo de espessura, algum dia 
ficar deste jeito. Faze- a rir com semelhante pilhria. Dize- me uma coisa, Horcio, por obsquio. 



HORCIO: Que , prncipe? HAMLET: Acreditas que Alexandre, depois de enterrado, tivesse este mesmo aspecto? HORCIO: Igual, igual, prncipe. HAMLET: E este cheiro? 
Pu! (Joga o crnio.) HORCIO: O mesmo, prncipe. HAMLET: A que usos nfimos temos de prestar- nos, Horcio. Por que no acompanhar a imaginao as nobres cinzas 
de Alexandre, at encontr- las servindo para tapar um barril? 



HORCIO:  ir muito longe, considerar as coisas por esse modo. HAMLET: De forma alguma. Acompanhemo- las com bastante modstia, deixando- nos guiar apenas pela verossimilhana. 
Mais ou menos deste jeito: Alexandre morreu; Alexandre foi enterrado; Alexandre tornou- se p. O p  terra; da terra faz- se argila; por que, ento, no se poder 
tapar um barril de cerveja com a argila em que ele se converteu? O grande Csar morto e em p tornado, pode a fenda vedar ao vento irado. O p que o mundo inteiro 
trouxe atento, ora o muro protege contra o vento. Mas, silncio; cautela. Afastemo- nos. A vem o rei. 



(Entram padres, etc. em procisso. O corpo de Oflia, Laertes, as carpideiras; o Rei, a Rainha, squito, etc.) 



A corte toda, a rainha! A quem sepultam com ritos incompletos? Isso indica que a pessoa a que trazem suicidou- se com mo desesperada. E era de estado. Vamo- nos 
ocultar para observ- los. 



(Retira- se com Horcio.) LAERTES: Que cerimnia mais? HAMLET: Esse  Laertes, jovem da alta prospia; observa- o bem. LAERTES: Que cerimnia mais? PRIMEIRO PADRE: 
Quanto nos foi possvel, prolongamos- lhe as obsquias. Sua morte foi suspeita, e a no ser a presso sobre nossa ordem, seria sepultada em cho profano at ao clarim 
final. Em vez de pias oraes, lhe teramos jogado seixos, ties e cardos. Ao invs disso, consentimos nas flores sobre a 



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tumba, a coroa de virgem e no dobre de finados durante o saimento. LAERTES: No se far mais nada? PRIMEIRO PADRE: Nada mais; mancharamos agora esse servio se 
cantssemos Rquiem, como em casos de morte em santa paz. 



LAERTES: Ponde- a na terra! Que de sua carne pura e no manchada nasam violetas. Padre bronco, digo- te que minha irm vai ser um anjo, enquanto tu ficars a contorcer- 
te em urros. 



HAMLET: Que ouo? A bela Oflia? A RAINHA: Para a fragrncia, mais perfume. Adeus. Sempre esperei que viesses a casar- te com meu Hamlet; imaginara o leito de npcias 
enfeitar- te, doce criana, jamais a sepultura. 



LAERTES: Maldio trplice, triplicada mais dez vezes, caia sobre a cabea amaldioada do infame causador de teu desvairo. Parai com a terra, at que nestes braos 
a aperte novamente. 



(Salta na cova.) Agora ponde sobre o vivo e o cadver vossa poeira, at que o cho transformeis numa montanha que vena o velho Plio ou a azul cabea do celestial 
Olimpo. 



HAMLET: Quem se queixa com nfase to grande e com palavras que detm as estrelas em seu curso como ouvintes pasmados? Sou Hamlet, sim, o Dinamarqus. 



(Salta na cova.) LAERTES: O diabo te leve a alma! (Atraca- se com ele.) HAMLET: No rezaste direito. Digo- te que me soltes a garganta, pois embora eu no seja nem 
furioso nem frentico, posso conter algo de que deves recear- te. Tira as mos! 



O REI: Separem- nos! A RAINHA: Hamlet! Hamlet! TODOS: Calma! HORCIO: Prncipe, por favor... (Alguns dos presentes os apartam; saem da sepultura.) HAMLET: Por tal 
motivo lutarei com ele enquanto eu conseguir mover as plpebras. A RAINHA Que motivo, meu filho? HAMLET: Amava Oflia; quarenta mil irmos no poderiam, com todo 
o seu amor multiplicado, perfazer o total do que eu lhe tinha. Que farias por ela? 



O REI: Laertes, est louco. A RAINHA: Evitai- o, por Deus. 



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HAMLET: Com os diabos! Dize logo o que farias. Chorar? brigar? jejuar? fazer- te em tiras? beber vinagre e at engolir inteiro um crocodilo? Tudo isso eu posso. 
Que vieste aqui fazer? Gemer apenas? desafiar- me na cova? Se desejas que te enterrem, tambm posso imitar- te. Se falas de montanhas, que despejem sobre ns milhes 
de acres, at que o solo v queimar- se de encontro  zona ardente, deixando o Ossa tornar- se uma verruga. Como vs, eu tambm falo empolado. 



A RAINHA:  da loucura; o acesso dura pouco; mas logo, to quietinho como a pomba, quando os gmeos lhe nascem de cor de ouro, as asas o silncio lhe adormece. 



HAMLET: Respondei- me, senhor: por que motivo me tratais desse modo? Amei- vos sempre. Mas isso pouco importa; deixai que Hrcules faa como entender; o gato mia; 
o cachorro tambm ter seu dia. 



(Sai.) O REI: Meu caro Horcio, peo- te, acompanha- o. (Sai Horcio.) (A Laertes.) Fortifica a pacincia no que  noite conversamos, que breve decidimos esse assunto. 
( Rainha.) Boa Gertrudes, cuida de teu filho. ( parte.) Esta cova h de ter moimento vivo. Uma hora de sossego ainda vir; com pacincia esperemos at l. (Saem 
todos.) Cena II Uma sala no castelo. Entram Hamlet e Horcio. HAMLET: Sobre esse assunto,  quanto basta; agora cuidemos do outro. Lembras- te de todas as particularidades? 



HORCIO: Se me lembro! HAMLET: Uma luta travou- se- me no peito, que o sono me tirou; sofria como revoltosos em ferro. De repente - Viva a temeridade! -  muito 
certo que a indiscrio por vezes nos ampara, quando a trama periga. Isso nos mostra que um deus aperfeioa nossos planos, ainda que mal traados. 



HORCIO:  bem certo. HAMLET: Sa do camarote envolto s pressas no meu roupo de viagem, para ach- los na escurido. Consigo o intento, lano mo do pacote e me 
retiro para meu quarto novamente. Com audcia, que o medo vence o brio, os selos quebro da grande comisso, achando, Horcio - oh banditismo real! - uma ordem clara, 
com vrios argumentos relativos ao bem da Dinamarca e da Inglaterra e no sei mais que duendes e fantasmas, no caso de com vida me deixarem, para que na mesma hora, 
sem delongas, nem sequer a de afiar a machadinha, me degolassem. 



HORCIO: Qu!  ento possvel? 



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HAMLET: Aqui tens o mandato. Podes l- lo com vagar. Mas no queres que te conte como me decidi? HORCIO: Com todo o gosto. HAMLET: Cercado assim por tantas vilanias, 
mesmo antes de eu poder dizer o prlogo, representava o crebro. Sentei- me e escrevi com capricho nova carta. J pensei, como os nossos estadistas, que  feio escrever 
bem, tendo insistido, at, em desaprend- lo; mas, nessa hora muito bom me foi isso. Quererias saber qual o contedo da mensagem? 



HORCIO: Com todo o gosto, prncipe. HAMLET: Rogo instante do rei, considerando que a Inglaterra era fiel subordinada, que o amor entre os dois povos deveria florescer 
como a palma, que a concrdia a grinalda de trigo apresentava como trao- de- unio entre as coroas, e outros considerandos de igual porte, para que, conhecido o 
teor da carta, fossem mortos depressa os portadores, sem delongas, e at sem dar- lhes tempo de confessar as culpas. 



HORCIO: Bem; e o selo? HAMLET: Nisto o cu me ajudou. Tinha na bolsa o sinete que fora de meu pai e que serviu de norma para o selo da Dinamarca. Aps, dobrada 
a carta, subscritada e impresso nela o timbre, pu- la no lugar da outra, sem vestgio deixar da troca. Deu- se no outro dia o combate. J sabes tudo o mais. 



HORCIO: Desta arte, Rosencrantz e Guildenstern seguiram seu caminho. HAMLET: Ora, homem; foram eles que namoraram esse emprego. Remorso algum me vem por ter feito 
isso. Caem, por terem sido intrometidos.  perigoso, para a gente baixa, ficar entre os floretes inflamados de dois opositores poderosos. 



HORCIO: E dizer- se que  rei! HAMLET: No achas que fiz bem? Ele privou- me do meu pai, prostituiu- me a me, meteu- se entre a escolha do povo e meus anelos, 
jogou o lao, visando at a matar- me, e com tanta perfdia... Em s conscincia, no cabe a este meu brao dar- lhe o troco? No  crime deixar um verme desses 
corroer- me por mais tempo a prpria carne? 



HORCIO: Dentro de pouco tempo ho de chegar- lhe notcias da Inglaterra sobre o caso. HAMLET: At l o tempo  meu. A vida humana no dura mais do que a contagem 
de um. Mas, meu bondoso Horcio, fico triste por me haver esquecido de mim mesmo, frente a Laertes; vejo em minha causa representada a sua. Estimo- o muito; mas, 
realmente, as bravatas nos lamentos deixaram- me furioso. 



HORCIO: Basta. Vede quem vem chegando. (Entra Osrico.) OSRICO: Vossa Alteza  muito bem- vindo  Dinamarca. HAMLET: Humildemente vos agradeo, meu senhor. ( parte, 
a Horcio.) Conheces esse mosquito? HORCIO: ( parte, a Hamlet): No, caro prncipe. 



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HAMLET: Tanto melhor para a tua salvao, porque  vcio conhec- lo. Possui muitas terras e todas frteis. Se fosse animal o rei dos animais, a manjedoura deste 
ficaria sempre ao lado da mesa do rei.  um bisbrria, mas, como disse, dono de grandes extenses de lama. 



OSRICO: Meu doce senhor, se Vossa Alteza dispuser de tempo, farei uma comunicao da parte de Sua Majestade. 



HAMLET: Receb- la- ei com a mxima ateno. Usai vosso chapu de acordo com a sua finalidade; foi feito para a cabea. 



OSRICO: Agradeo a Vossa Senhoria; mas faz muito calor. HAMLET: Ao contrrio, podeis crer- me; faz muito frio;  vento norte. OSRICO: Realmente, prncipe, est fazendo 
bastante frio. HAMLET: Conquanto me parea que o tempo est abafado e quente para a minha compleio. OSRICO: Sim, no h dvida, algo abafado, de certo modo... 
No sei como me exprima. Mas, senhor, Sua Majestade me incumbiu de comunicar- vos que apostou uma grande quantia sobre vossa pessoa. O caso  o seguinte... 



HAMLET: (concitando a cobrir- se): Peo- vos, no vos esqueais... OSRICO: Deixai, meu caso senhor; estou  vontade. Mas senhor, Laertes chegou  corte h pouco 
tempo; um cavalheiro, podeis crer- me, na acepo lata do termo, com excelentes qualidades, boa presena e conversao agradvel. De fato, para falar dele com toda 
a propriedade,  a carta ou almanaque da cortesania, por encontrar- se nele a smula de todos os dotes que pode um gentil- homem ambicionar. 



HAMLET: O seu elogio nada perdeu em vossa boca, conquanto eu saiba que se fssemos fazer um inventrio de suas qualidades, padeceria a aritmtica da memria sem 
que na rota em que ele vai se observasse a menor guinada. Para exalt- lo com toda a sinceridade, considero- o um esprito muito aberto, com dotes to preciosos 
e raros, que, para tudo dizer em uma s palavra, igual a ele, s poder encontrar em seu prprio espelho. Qualquer outra tentativa para retrat- lo redundaria em 
sua simples sombra. 



OSRICO: Vossa Alteza fala com convico. HAMLET: A que respeito, senhor? Mas, afinal, porque motivo estamos a envolver esse cavalheiro em nosso grosseiro flego? 



OSRICO: Senhor? HORCIO: No seria possvel fazerem- se ambos compreender em outra lngua? Decerto o podem. HAMLET: A que vem agora o nome desse cavalheiro? OSRICO: 
De Laertes? HORCIO: Esvaziou- se- lhe a bolsa; esto gastas todas as palavras de ouro. 



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HAMLET: Dele mesmo, senhor. OSRICO: Sei que no ignorais... HAMLET: Folgo com isso, conquanto no me recomende muito o fato de o saberdes. Prossegui, senhor. OSRICO: 
... no ignorais a que ponto Laertes prima... HAMLET: No me atrevo a dizer que sim, com medo de comparar- me ao seu merecimento; conhecermos bem uma pessoa,  conhecermos 
a ns mesmos. 



OSRICO: Refiro- me  sua habilidade de manejar arma; o conceito de que desfruta nesse terreno no lhe permite competidor. 



HAMLET: E qual  a sua arma? OSRICO: Florete e adaga. HAMLET: Seriam, ento, duas. Mas, prossegui. OSRICO: O rei, senhor, empenhou seis cavalos berberes, contra 
os quais, se diz, Laertes joga seis espadas francesas com todas as suas pertenas: cintures, talabartes e o resto. Trs desses trens so realmente soberbos, bem 
adaptados aos punhos, trabalhados com esmero e de inveno admirvel. 



HAMLET: A que dais o nome de trem? HORCIO: J sabia que havereis de recorrer  nota marginal, antes de chegar ele ao fim. OSRICO: Trens, meu senhor, so os sustentculos. 
HAMLET: A expresso assentaria, se usssemos canhes  cinta. At l, fiquemos com sustentculos. Mas, prossegui: seis cavalos berberes contra seis espadas com todos 
os seus acessrios e mais trs desses trens de elevada inveno: uma aposta da Frana contra a Dinamarca. Mas, por que motivo, para usar de vossa expresso, empenharam 
tudo isso? 



OSRICO: O rei, senhor, apostou que em doze botes en tre Laertes e Vossa Alteza, aquele no levar mais do que trs de vantagem; Laertes aposta que vos tocar nove 
vezes em doze, o que poder ser posto imedia tamente  prova, se Vossa Alteza se dignar de responder- lhes. 



HAMLET: E se eu me decidir pela negativa? OSRICO: Quero dizer, prncipe, no caso de quererdes expor vossa pessoa. HAMLET: Senhor, vou pr- me a passear nesta sala; 
se for do agrado de Sua Majestade, estarei na hora de tomar um pouco de ar fresco. Tragam os floretes, uma vez que o cavalheiro consinta; se o rei persiste em seu 
intento, ganharei para ele o que puder; em caso contrrio, lucrarei apenas a vergonha e os golpes sobressalentes. 



OSRICO: Posso transmitir vossa resposta nesses termos? HAMLET: O sentido  esse, senhor, ficando- vos facultado florear de acordo com vossa capacidade. OSRICO: Minha 
gratido se recomenda a Vossa Alteza. 



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HAMLET: A minha, a minha. (Sai Osrico.) Fez ele muito bem em recomendar- se, que no h lnguas que pudessem faz- lo. 



HORCIO: Esse abibe fugiu do ninho com a casca do ovo na cabea. HAMLET: Para mamar ele fazia mesuras aos peitos da ama; como os muitos do mesmo rebanho, que constituem 
o encanto de nossa poca superficial, adquiriu apenas o tom da moda e o verniz da sociedade, que, como espuma fina, o fazem passar atravs das opinies mais joeiradas 
e batidas. Mas bastar soprar, para que as bolhas se desfaam. 



(Entra um nobre.) O NOBRE: Alteza, Sua Majestade se recomendou a vs pelo moo Osrico, que de vossa parte lhe disse o aguardareis na sala. Agora manda- me saber 
se  de vosso agrado medir- vos logo com Laertes, ou se preferes adiar a partida. 



HAMLET: Sou constante em meus intentos; meus intentos seguem o prazer do rei. Se falar a sua convenincia, a minha nada ter a objetar: agora, ou em qualquer tempo, 
uma vez que me encontre to forte como agora. 



O NOBRE: O rei, a rainha e toda a corte se encaminham para c. HAMLET: Em boa hora. O NOBRE:  desejo da rainha que Vossa Alteza dirija palavras de cortesia a Laertes, 
antes de iniciardes a partida. 



HAMLET:  razovel o que aconselha. (Sai o nobre.) HORCIO: Ides perder essa partida, prncipe. HAMLET: No creio; desde que ele foi para a Frana, no deixei de 
praticar a esgrima; vou ganhar dentro da margem que me concede. Mas no fazes idia de como sinto apertar- se- me o corao. No importa... 



HORCIO: Se assim , prncipe... HAMLET: Tolice... Um pressentimento apenas, mas que bastaria para preocupar uma mulher. HORCIO: Se vosso esprito revela qualquer 
repugnncia, convm obedecer- lhe, irei ao encontro deles, para dizer- lhes que vos achais indisposto. 



HAMLET: De forma alguma; desafio os pressgios. H uma especial Providncia na queda de um pardal. Se tem de ser j, no ser depois; se no for depois,  que vai 
ser agora; se no for agora,  que poder ser mais tarde. O principal  estarmos preparados, Uma vez que ningum sabe o que deixa, que importa que seja logo? que 
seja! 



(Entram o Rei, a Rainha, Laertes, nobres, Osrico, e ajudantes, com floretes, etc.) O REI: Recebe, Hamlet, a mo que te apresento. (O Rei coloca a mo de Laertes 
sobre a de Hamlet.) HAMLET: Perdoai, senhor; causei- vos grande ofensa. Sabem- no os circunstantes, e decerto j ouvistes 



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comentar, que estou sofrendo de atroz melancolia. Tudo o que fiz, que a vossa natureza porventura ofendesse, e a honra e o carter, proclamo- o: foi loucura. Foi 
Hamlet que a Laertes magoou? Jamais. Se Hamlet de si mesmo se abstrai e, sem ser ele, causa a Laertes uma ofensa, Hamlet no foi o causador, pode afirm- lo. Quem 
foi, ento? Sua loucura. Logo, Hamlet est do lado do ofendido; seu maior inimigo  a prpria doena. Deixai, senhor, que, em face dos presentes, o franco renegar 
de maus intentos me absolva ante vossa alma generosa.  como se uma flecha eu disparasse por sobre a casa e o irmo, sem ver, ferisse. 



LAERTES: Declaro satisfeita a natureza que razes encontrava de  vingana concitar- me. No campo estrito da honra, contudo, impugnarei qualquer proposta de reconciliao, 
at que mestres idosos, de lealdade comprovada, firmados na experincia, me declarem limpo o meu nome. Antes, porm, que chegue essa hora, aceitarei vossa amizade, 
qual , sem a magoar. 



HAMLET: Isso me alegra. Encetarei lealmente esta compita fraternal. Os floretes! LAERTES: Vamos; quero um, tambm. HAMLET: Vou servir de fundo para vosso brilho, 
Laertes. Minha inpcia far luzir vossa arte, como a noite a uma estrela fulgente. 



LAERTES: Estais zombando. HAMLET: Por estas mos o juro. O REI: Jovem Osrico, entrega- lhes as armas. Conheces, primo Hamlet, as condies? HAMLET: Conheo- as. 
Vossa Graa d vantagens para o mais fraco. O REI: No receio nada; j os vi lutar; mais se ele fez progressos, que seja para ns a diferena. LAERTES: Este  muito 
pesado; mostrai- me outro. HAMLET: Este  bom; todos so de igual tamanho? OBRICO: Todos, meu bom senhor. (Colocam- se.) O REI: Ponde as jarras de vinho sobre a 
mesa. Se Hamlet da primeira ou da segunda vez o tocar, ou se aparar o golpe na terceira investida, que abram fogo todas as baterias, O rei bebe  sade de Hamlet, 
pondo dentro de sua taa uma prola mais rica do que as que em seus diademas ostentaram os quatro ltimos reis da Dinamarca. Tragam taas. Transmitam os timbales 
a notcia s trombetas, estas logo aos canhoneiros fora o sinal levem, os canhes para o cu, o cu  terra:  sade de Hamlet que o rei bebe! Vamos logo! E vs, 
juizes, olho atento! 



HAMLET: Vamos. LAERTES: Em guarda, prncipe. HAMLET: Uma. LAERTES: No. 



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HAMLET: O juiz que o decida. OSRICO: Tocado, no h dvida. LAERTES: De novo. O REI: Descansem; tragam vinho. Hamlet, a prola  em teu louvor. Sade! Dem- lhe 
a taa. (Soam trombetas; disparos de canhes no fundo.) HAMLET: Depois; primeiro novo assalto. Vamos. (Lutam.) Novamente tocado; que dizeis? LAERTES: Fui tocado, 
confesso- o. O REI: Nosso filho vai ganhar. A RAINHA: Est suando e perde o flego. Toma o meu leno, Hamlet; limpa a fronte. A rainha ora bebe ao teu bom xito. 



HAMLET: Nobre senhora! O REI: No, no bebas, Gertrudes. A RAINHA: Consenti, caro esposo;  meu desejo. O REI ( parte): A taa envenenada;  muito tarde. HAMLET: 
No quero ainda, senhora; mais um pouco. A RAINHA: Vem at aqui, para enxugar- te o rosto. LAERTES: Pretendo desta vez, senhor, toc- lo. O REI: No creio. LAERTES 
( parte): Contudo,  quase contra minha prpria conscincia. HAMLET: Vinde, Laertes, para o terceiro assalto. Estais brincando. Peo- vos que empregueis toda a 
percia. Temo que me trateis como a uma criana. 



LAERTES:  assim? Pois bem. (Lutam.) OSRICO: De parte a parte, nada. LAERTES: Tomai cuidado agora. (Laertes fere a Hamlet; depois, no afogo da luta, trocam as armas 
e Hamlet fere a Laertes.) O REI: Separem- nos! Excedem- se! HAMLET: No! No! Em guarda! (A Rainha cai.) OSRICO: Oh! A rainha! Vede- a! 



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HORCIO: Ambos se acham feridos. Como estais, prncipe? OSRICO: Como estais vs, Laertes? LAERTES: Como um galo silvestre, Osrico, preso no seu lao; fui vtima 
de minha felonia. HAMLET: Que  que houve com a rainha? O REI: Desmaiou por ter visto sangue em ambos. A RAINHA: No  isso... a bebida... Oh! caro Hamlet! A bebida... 
a bebida... envenenada... (Morre.) HAMLET: Oh! Vilania! Fechem bem as portas! Traio! Ah! Procuremos os culpados! (Laertes cai.) LAERTES: Aqui, Hamlet, aqui! Ests 
perdido; nada no mundo existe que te salve; no tens nem meia hora mais de vida. O instrumento fatal se acha em tuas mos, sem guarda e envenenado. Minha astcia 
se virou contra mim. Jazo por terra para sempre. Tua me.., envenenada. No posso mais... O rei...  ele o culpado. 



HAMLET: A ponta envenenada? Ento, veneno, prossegue em teu trabalho. (Fere o Rei.) TODOS: Traio! Traio! O REI: Amigos, defendei- me! Estou apenas ferido. HAMLET: 
Incestuoso assassino, Dinamarqus maldito, bebe, bebe tua parte, tambm. Contm tua prola? Vai, vai com minha me. 



(O Rei morre.) LAERTES:  justo!  justo! O veneno, ele mesmo o preparara. Perdoemo- nos, agora, nobre Hamlet. Que minha morte e a de meu pai no caiam sobre ti, 
nem a tua sobre mim. 



(Morre.) HAMLET: O cu te absolva; sigo- te. Estou morto, Horcio. Infeliz me, adeus, adeus. Vs que empalideceis a esta catstrofe, que no passais de mudos assistentes 
desta cena... Se o tempo me sobrasse - que a Morte, o beleguim que no conhece contemplaes,  sempre rigorosa - Se pudesse contar- vos! Que importa! Horcio, eu 
morro, mas tu vives; perante os descontentes, justifica- me e  minha causa. 



HORCIO: No; no penseis nisso; sou mais romano antigo do que mesmo dinamarqus. Na taa ainda h veneno. 



HAMLET: Como o homem que s, entrega- me essa taa. Entrega- ma, por Deus! Larga- a! Desejo- a!  



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Deus! Que nome eu deixo, Horcio caso continuem confusas essas coisas. Se algum dia em teu peito me abrigaste, priva- te por um tempo da ventura e respira cansado 
mais um pouco neste mundo to duro, para a todos contares minha histria. 



(Marcha ao longe; tiros de canho por trs da cena.) Que barulho marcial se est ouvindo? OSRICO:  o jovem Fortimbrs que da Polnia retorna vitorioso e os emissrios 
da Inglaterra sada desse modo. 



HAMLET: Morro, Horcio; o veneno me domina j quase todo o esprito; no posso viver para saber o que nos chega da Inglaterra. Contudo, profetizo que h de ser escolhido 
Fortimbras. Meu voto moribundo  tambm dele. Dize- lhe isso e lhe conta mais ou menos quanto ora aconteceu... O resto  silncio. 



(Morre.) HORCIO: Um nobre corao que assim se parte. Boa noite, meu bom prncipe. Que os anjos com seu canto ao repouso te acompanhem. E esse tambor agora? 



(Entram Fortimbrs, os embaixadores da Inglaterra e outros.) FORTIMBRS: Onde  esta cena? HORCIO: Que espcie procurais? Se de infortnio, ou de assombro, parai 
com vossas buscas. FORTIMBRS: Destroo  o que se v.  feroz Morte! Que festim se processa em tua cela, para que de um s golpe tantos prncipes banhes em sangue? 



PRIMEIRO EMBAIXADOR: A vista  pavorosa. Chegamos atrasados; surdos se acham os ouvidos que audincia deveriam conceder- nos, a fim de lhes contarmos da execuo 
de seu mandado: mortos se encontram Rosencrantz e Guildenstern. Quem h de agradecer- nos? 



HORCIO: No o rei, certamente, ainda que vida lhe sobrasse para isso, pois no dera ordem no que respeita  morte de ambos. Mas, uma vez chegados a esta cena sangrenta, 
um da Inglaterra, outro da guerra da Polnia, ordenai que os corpos sejam expostos num tablado bem  vista, que eu contarei ao mundo, que ainda o ignora, como tudo 
se deu. Ouvireis todos falar de atos carnais, de incestos, sangue, julgamentos casuais, mortes fortuitas, de crimes por acaso ou pela astcia, e de planos gorados, 
que caram sobre os prprios autores. Com verdade, tudo isso contarei. 



FORTIMBRS: Que seja logo. Convoquemos os nobres ao conselho Enquanto a mim, com dor abrao a sorte: tenho sobre este reino alguns direitos, que o interesse me faz 
ora lembrados. 



HORCIO: Tenho algo que dizer tambm sobre isso, em nome de uma boca cujo voto muitos h de arrastar. Ponhamos pressa na execuo de tudo, enquanto inquietos os 
espritos se acham, para novas desgraas evitar, oriundas de erros ou de tramas conscientes. 



FORTIMBRAS: Que quatro capites a Hamlet levem como a um soldado e o ponham sobre o leito. Se o trono ele alcanasse, tudo o indica, seria um grande rei. Que  sua 
passagem msica militar e salvas blicas falem alto por ele. Removei logo os corpos; esta vista  prpria s dos campos de batalha; neste lugar, porm,  em tudo 
falha. Uma salva geral! 



(Marcha fnebre. Saem carregando os corpos, depois do que se ouve uma salva de artilharia.)
